ALFREDO GRUMSER FILHO – TURFE NACIONAL PERDEU UM DE SEUS ÍCONES

João Carlos Faro

Faleceu no último dia 1º de setembro, nos Estados Unidos, o vitorioso empresário, sócio do JCB, criador e proprietário ALFREDO GRUMSER FILHO, titular do Haras Doce Vale, um dos mais proeminentes do turfe brasileiro. Uma perda gigante para o turfe nacional. Apaixonado pelo cavalo Puro-Sangue Inglês de corrida, Grumser fez de tudo para se colocar entre os principais criadores e proprietários do país. E tem história das mais interessantes. Começou no turfe, ainda de forma discreta, com o STUD GRUMSER, na década de 70. Antes de fundar o HARAS DOCE VALE – um dos mais destacados do país –, foi sócio da RIO GRANDE AGRO PASTORIL LTDA, uma importante coudelaria em sua época.


Alfredo Grumser Filho - JCB

 

Antônio Carlos de Almeida Braga, um velho amigo

Alfredo Grumser Filho começou sua vida profissional no Bradesco, onde fez sólida amizade com o banqueiro, empresário, forte incentivador e mecenas do esporte brasileiro, ANTÔNIO CARLOS DE ALMEIDA BRAGA. “Braguinha”, como era mais conhecido, foi amigo de ícones do esporte brasileiro, tais como os consagradíssimos Ayrton Senna e Emerson Fittipaldi (azes do automobilismo), Pelé (o maior jogador do futebol mundial de todas as épocas) e Gustavo Kuerten (tenista que divulgou internacionalmente sua arte). Braguinha era o dono da Atlântica Seguros, uma das maiores seguradoras do Brasil da época, e que mais adiante fez fusão com a Bradesco Seguros.

Craque na operação das bolsas de valores

Dotado de inteligência superior, Alfredo Grumser Flho chegou a ser apelidado de MALBA TAHAN (autor do célebre livro “O Homem que Calculava”). Craque como operador nas bolsas de valores mundo afora, fez fortuna na década de 80 – época de grande efervescência nas bolsas de valores do Rio (hoje extinta) e de São Paulo. Seu sucesso particular permitiu que pudesse investir maciçamente no turfe, como era sua intenção. No começo da década de 90, adquiriu as terras, os reprodutores e as matrizes do HARAS INSHALLA (porteira fechada), transformando tudo – e todos – em Haras Doce Vale (nome dado em homenagem à mineradora Vale do Rio Doce, da qual era grande acionista). A fundação do HARAS DOCE VALE (em 1987) alavancou o que viria a ser um dos mais importantes pilares da história turfística no país, com cavalos vitoriosos nas principais provas do Brasil e no exterior. Sua criação acrescentou grande classicismo ao turfe nacional. Fã da jaqueta de ROGER GUEDON (branca, cinto e braçadeiras encarnadas e azuis), também adquiriu a farda, que passou a ser do vitorioso criatório.

Bicampeão da maior prova do turfe brasileiro

Seus destacados corredores faturaram muitas das principais carreiras do turfe brasileiro, inclusive dois GPS BRASIL, a prova máxima do turfe nacional: MY CHERIE AMOUR (em 2016) e PIMPER’S PARADISE (em 2020), ambos preparados pelo VENÂNCIO NAHID. MY CHERIE AMOUR é filho dos brasileiros AY CARAMBA (vencedor, em 2003, do GP ABCPCC-G.1, e do GP Costa Ferraz-G.3) e BUY ME LOVE, ambos criados pelo Haras Doce Vale. PIMPER’S PARADISE, que tentava o bicampeonato e foi o favorito no GP Brasil deste ano, é filho do americano PUT IT BACK (pai de diversos ganhadores de provas do G.1) e BYE BYE CAROLINE (égua criada pelo Haras Doce Vale).

Venâncio: ‘Grumser está no rol dos meus melhores proprietários’

O treinador VENÂNCIO NAHID, maior ganhador do turfe brasileiro entre os ainda em atividade, estava muito entristecido pela perda. Não poupou elogios a Alfredo Grumser Filho: “Sou um treinador afortunado em termos de proprietários. E Grumser certamente está no rol dos melhores que já tive. Patrão excepcional, participativo, amigo, ótimo de trabalhar. Transmitia confiança a todos. Já está fazendo muita falta. Tinha uma paixão enternecedora pelos seus cavalos, fazendo questão de vê-los correr, pouco se importando se numa prova graduada ou num páreo de claiming. Gente da melhor qualidade, assim como a Patricia, que mostrou ter total razão em querer dar mais tempo para que o Pimper’s Paradise se recuperasse. A sequência mostrou isso”, disse o consagrado treinador, com mais de 3 mil triunfos na carreira e maior ganhador da história do GP Brasil, com um total de seis vitórias. 

Pelos cavalos, um amor extremo e eterno

Grumser mostrava amor pelos cavalos ao manter seus reprodutores e reprodutoras já aposentados em suas terras, no município de ACEGUÁ, no Rio Grande do Sul. Deixava patente que quem ama os cavalos, jamais os abandona.

For Merit, um corredor que desafiou o fenômeno Itajara

FOR MERIT, que Grumser chegou a considerar seu melhor cavalo, foi o animal que mais perto chegou do fenômeno Itajara, quando do 2º lugar para o tríplice coroado invicto no GP Estado do Rio de Janeiro (G.1), prova de abertura da Tríplice Coroa carioca de 1987. Perdeu por 1 ½ corpo para o fenômeno ITAJARA, em marca recorde na época. Era filho de DEPRESSA, o primeiro garanhão do haras de Grumser.

Casal de turfistas fora de série

Alfredo Grumser Filho era casado com PATRICIA BOZANO, filha de JULIO BOZANO, maior criador e mega proprietário do turfe brasileiro. Um casal de gostos refinados que dividia a vida em torno das moradias, dos filhos, das obras de arte, de restaurantes chiques. Costumavam frequentar o Country Club do Rio de Janeiro e tinham casa em Greenwich, cidade do estado americano de Connecticut (próximo de Nova York), e apartamento em Ipanema, Zona Sul do Rio de Janeiro. Ambos são apaixonados pelos cavalos, que participam de páreos importantes em vários hipódromos no Brasil e no Exterior.

Matrizes que se revelaram marcantes

Entre as matrizes adquiridas do Haras Inshalla estava COURT LADY, responsável pela melhor linha materna do Doce Vale, foi mãe de DOUBLE TROUBLE (ganhadora do Santa Maria Handicap, do Grupo 1, nos EUA) e de ONEFORTHEROAD, vencedora de cinco provas, entre elas o GP Diana (G.1) de 1995, em São Paulo, e com desempenho ainda mais espetacular como reprodutora, tendo produzido, entre muitos outros, FLYMETOTHEMOON, campeão do GP São Paulo de 2009 e do GP Linneo de Paula Machado de 2008, ambos do G.1; ÉISSOAÍ, campeã do GP Diana (G.1) paulista de 2007; BYE BYE CAROLINE, mãe de Pimper’s Paradise, e AY CARAMBA, milheiro ganhador de G.1 e G.3, na Gávea, em 2003.                            

Um turbilhão de animais de altíssimo nível

Muitos grandes corredores defenderam as sedas de Alfredo Grumser Filho, através dos tempos. Como seria enfadonho enumerar todos, selecionamos alguns dos que entendemos ser dos mais importantes. Além dos já citados MY CHERIE AMOUR e PIMPER’S PARADISE, campeões do GP Brasil, listamos: FLUKE (Wild Event e Uff-Uff, por De Quest), um dos grandes símbolos do Haras Doce Vale, ganhador de prova do Grupo 3, na Gávea, e após o 2º lugar no GP Juliano Martins (G.1), em Cidade Jardim, foi levado para os Estados Unidos, onde ganhou duas provas do G.1 – o Frank E. Kilroe Mile Handicap e o Citation Handicap. Voltou ao Brasil para ser aproveitado na reprodução. Precocemente desaparecido, porém, deixou apenas uma geração (29 produtos, nascida em 2013, entre eles o castanho NEW IN TOWN (ganhador de Grupo 2, na Gávea) e as fêmeas NOSTALGIE (campeã do GP Margarida Polak Lara, do G.1 – Taça de Prata de 2016, em Cidade Jardim) e NO REGRETS, 5ª das seis potrancas tríplice coroadas cariocas (em 2017). Outros nomes inesquecíveis da criação de Grumser foram: ROUND HILL (Ghadeer e Stormy Girl, por Ahmad), ganhador de G.2 na Gávea, aos 26 anos já aposentado como reprodutor, mas mantido no haras; KIJOLIGHADEER (Ghadeer e Babulinka, por Frenchman’s Creek), que foi ganhador de G.2 e de G.3, em 1993, na Gávea; e AY CARAMBA (Roi Normand e Onefortheroad, por Ghadeer), ganhador dos GPs ABCPCC (G.1) e Costa Ferraz (G. 3), ambos em 1.600m, no ano de 2003, na Gávea.

Algumas histórias de quem fez história

Duas histórias – ambas envolvendo homenagens – ficaram marcadas na lembrança de Grumser e de seus amigos. GIORGIANO DE DIOS, criado pelo Haras Ereporã, foi o 1º cavalo de Grumser. Isso bastou para motivá-lo a batizar a filha com o nome de Giorgia. Chefiado teve o nome trocado para GRUMSER VALE pelo amigo Jorge Gonçalves, que sugeriu a Grumser começar por baixo, adquirindo um potrinho barato, num haras pequeno. Como a pequenez não era, definitivamente, a marca de Alfredo Grumser Filho, o tordilho GRUMSER VALE (Quenoir e Saltitante, por Felicio) acabou se transformando no maior velocista de sua época e foi reprodutor de grande sucesso do Haras Retiro Vera Cruz. Histórias que embalam os sonhos e os intermináveis papos de turfe dos “burregos”, como são chamados os turfistas nos demais países da América do Sul.

 

 



© 2020 - Jornal do Turfe Ltda.
Copyright Jornal do Turfe. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do Jornal do Turfe.