Renato Gameiro
 
 
 

INCOERÊNCIA PASSIVA

            Numa destas conversas, levadas a efeito na Gávea, na véspera do último GP Brasil, alguém sugeriu que eu tinha jogo de cintura para ler pedigrees. Agradeço, mas não mereço, pois sempre fui contrário ao famoso jeitinho brasileiro. Eu e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. 
Em uma de suas palestras em Yale, à qual compareci, ele teceu um comentário sobre isto e a coisa me impressionou tanto que não sosseguei até conseguir o texto de sua palestra. Imediatamente, separei as partes que mais me interessaram e principalmente o comentário que tanto me impressionou. E foi assim que ele se reportou em relação ao jeitinho brasileiro: “... Muitos observadores viam o jeitinho como decorrência a certa tendência tropical a jovialidade e ao bom humor, contribuindo para firmar o estereótipo do Brasil como uma espécie de um adorável vagabundo, com um copo de bebida a mão e dotado de uma lamentável, mas inata capacidade de cumprir compromissos. Eu, porém, considerava o jeitinho um aspecto oculto e muito mais sombrio da sociedade brasileira, algo que tocava no cerne de nossa história, ameaçando o meu governo...”
Pois é, eu humildemente concordo com esta linha de raciocínio de nosso ex-presidente. Não acredito no jeitinho e temo mais ainda que o jogo de cintura do brasileiro possa causar um deslocamento dos ossos dos quadris. 
No turfe, não há jeitinhos. As coisas acontecem ou não, pelas razões mais diversas possíveis e imaginárias. Como numa pescaria no mar. O peixe não fisga a isca porque você tem seu jeitinho próprio. Ele fisga por achar que ali está algo a ser comido. Simples como tal. Tentar descobrir não é de maneira alguma um jogo de cintura para ler e decifrar pedigrees. 
Sei que para muitos um pedigree é como um hieróglifo. Para mim, felizmente não. E com isto não quero de maneira alguma defender a tese que tenha todas as respostas. Talvez não tenha nenhuma sequer. Assim, pelo menos alerto para certas coisas que se repetem entre aqueles que fazem diferença em pista. E, quando elas se repetem inúmeras vezes, passo a sentir cheiro de sangue no ar.
Suedois, um dos mais instigantes corredores desta temporada e recentemente vencedor em Keeneland da Shadwell Mile (G.1). Para muitos - e estaria entre eles - pode vir a ser um dos favoritos da Breeders’ Cup Mile, a ser corrida em novembro. Atentem para seu pedigree: Noverre, seu avô paterno, é filho do milheiro Rahy, cuja mãe é a campeoníssima Glorious Song. A mãe de Noverre é uma égua por Northern Dancer. Enquanto Singspiel, o avô materno de Suedois, é um descendente de Northern Dancer, cuja mãe também é Glorious Song. Então, a meu ver, existe mais do que uma simples duplicação em Glorious Song. Existe sim, uma estrutura Glorious Song-Northern Dancer funcionando de forma significativa.

CLIQUE AQUI PARA VISUALIZAR A TABELA


É uma opinião? Evidente que sim? Tem fundamento? Por ter visto dezenas de casos, acredito que sim. Então, por que deixá-la passar despercebida? Trata-se de uma incoerência passiva não atentar a coisas como estas. Um erro crucial não aceitar estas infalíveis constâncias. E creio que um suicídio consentido, simplesmente, criticar sem ter uma base que estofe seu sofá de lamentações.
Não tenho jogo de cintura algum quando chego às minhas conclusões na análise de pedigrees. Simplesmente as tenho e as exponho. Segue aquele que quiser.

* Patrocínio - Stud Smith de Vasconcellos, Stud H & R, Stud Magic Island, Haras Tango e Haras Santa Rita da Serra.

 

 

 
 

© 2017 - Jornal do Turfe Ltda.
Copyright Jornal do Turfe. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do Jornal do Turfe.