Renato Gameiro
 
 
 

O GATO ARREPIA

         Quando escrevi este artigo num lugar chamado Le Pain Contidien - que paulistas conhecem bem - a temperatura em Manhattan era de sete graus negativos, e a sensação térmica do vento de menos 20ºC. Outrossim, isto não influiu de maneira alguma no texto, que o fizesse ficar depressivo, pois, sim, houve de minha parte uma tentativa honesta de torná-lo elucidativo. Volto a ressaltar que não creio em nacionalismo, quanto mais em bairrismo. Para mim o verde é verde, e o amarelo que seja amaelo. O que fazer?
Confesso que sou igualmente avesso a comparações, embora diga a meu favor, - sem modéstia alguma - ser dono de um bom senso comparativo, visto o que vivi e o que vejo ainda hoje pelo mundo em relação a cavalos de corrida. Agora comparar coisas atuais está dentro de um parâmetro que considero razoável. Mas elementos de eras distintas simplesmente apavoram-me. Explico-me melhor.
Falar de Zarkava e Enable, grandes éguas de uma mesma década, dá para se tecer um termo comparativo já que elas correram nos mesmos hipódromos, disputaram as mesmas carreiras e primaram pelas mesmas distâncias. Assim como Rachel Alexandra e Zenyatta, embora não tenham se enfrentado em uma única só vez. Agora tentar explicar o que foi a criação paulista e o que ela é agora se torna bastante difícil. Mas tentarei. E que as pedras venham...
O que se pode comentar, sem medo de estar se cometendo uma calúnia ou pisando em calos que teoricamente não deviam ser pisados, é que a criação paulista foi o maior artífice de classe de nossa história, nos anos 70 e 80, era do início das provas de Grupo no Brasil. Sempre me reportei à mesma como o maior reduto de stamina do país. Havia uma razão? Claro que sim. Os principais reprodutores e os mais renomados criadores estavam sediados no Estado de São Paulo. Aí veio Bagé, e o crescimento de certas regiões do Paraná. E o que se viu foram alguns haras tradicionais paulistas fechando suas portas e outros migrando para Bagé, como os criadores cariocas o fizeram, inclusive optando em sua grande maioria pelo Paraná. Creio que este movimento acabou com a criação carioca e diminuiu em muito o poderio da criação paulista. Creio que não pode ser visto como apenas uma opinião. Isto foi um fato.
Qualquer outra análise pode ser feita, mas a relação de causa e efeito não deverá ser considerada muito distinta. Na época dos Almeida Prados e a seguir dos Machlines, a coisa era outra. Havia cheiro de grandeza no ar, mas a chama enfraqueceu até quase se apagar. Cidade jardim querendo, volta a ser o que era. A Gávea permanece a mesma pela força de seus proprietários. Fecho parênteses.
Abro um parêntese, antes que a primeira pedra seja atirada. São Paulo é hoje a mais importante metrópole da América Latina, coisa que o Rio de Janeiro foi nas décadas de 60 e 70, mas aí vieram a Benedita, os Garotinhos, o Sérgio Cabral, e a coisa desmoronou. Mas turfe é outra coisa completamente distinta.
O que faz um centro criatório de cavalos de corrida progredir? A união, onde o congrassamento de profissionais e o desenvolvimento de sindicatos potencializa a atividade. Com o fechamento do Posto de Monta do Jockey Club de São Paulo - ato incompreensível para quem acredita no turfe - tivemos o início daquilo que considero uma queda. Imaginem fecharem o Posto de Monta de Newmarket e o da Irlanda? Dá para imaginar, ou terei que desenhar o apocalipse?
O que foi discutido na “A voz do Povo é a Voz de Deus”, última, com a prestimosa opinião do Adolpho Smith de Vasconcellos Crippa foi a tentativa - a meu ver catastrófica - de que São Paulo, como centro criatório tentou, trazendo reprodutores que, em pista, foram inegavelmente considerados grandes cavalos de corrida, mas que no breeding-shed de grandes centros turfísticos e, em alguns casos, em outros menores, haviam já fracassado de uma forma impossível de ser defendida. Falamos de Holy Roman Emperor, Rock Of Gibraltar, Peintre Celebre, Sinndar, Miesque’s Son, Trempolino, Sagamix, Shirocco e mesmo Refuse To Bend e Sulamani. Todos ganhadores de graduação máxima, de provas como Derbies, Breeders’ Cups e Arcos. E o que aconteceu? Tirando-se o Rock, que ainda tem tempo para mostrar algo, que até aqui pouco mostrou, talvez Refuse To Bend e com certeza Sulamani, pouco ou nada de bom creio que os outros citados trouxeram para o “elevage” paulista.
E, sem exceções, estamos falando de shuttles caros para os nossos padrões. Moral da história: o gato ficou arrepiado! Enquanto isto, embora o Paraná tenha incorrido no mesmo erro, Bagé com inéditos e muito menos onerosos, como Roderic O’Connor, Crimson Tide, Agnes Gold e com shuttles de cavalos que haviam sido reprodutores de médios para bons, como Royal Academy, Elusive Quality, Nothern Afleet, e com certa benemerência Vettori, obteve inegavelmente melhores resultados.
Como se vê: conceitos diferentes geram resultados distintos. Mas distinto é bom, o problema é que estes resultados entre Bagé, São Paulo e Paraná, a meu ver, foram diametralmente opostos. E, quando isto acontece, o gato arrepia.

* Patrocínio - Stud Smith de Vasconcellos, Stud H & R, Stud Magic Island, Haras Tango e Haras Santa Rita da Serra.

 

 

 
 

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