Renato Gameiro
 
 
 

UNIVERSO PARALELO?

          Lembro-me de uma frase hómerica de Bob Fields, o ministro do planejamento de Castelo Branco, Roberto Campos, em que ele comentava com o marechal revestido de presidente: “Se continuarmos a varrer todo o tempo o pó da cozinha, não terei condições para começar a cozinhar”.
Acho que, quando Deus criou o universo e disse ao bom e paciente São Pedro que, ao invés de dotar o Brasil de vulcões, maremotos, terremotos, furacões, tornados ou neve, colocaria um povo, como assim dizer diferente, ele não estava de maneira alguma exagerando. Ele nos fez, numa mescla de índios e portugueses, que na verdade desde lá de trás criaram aquilo que eu chamo de um eterno universo paralelo. Eramos apenas mazombos antes de nos tornamos brasileiros.
Somos o país do universo paralelo. Minha grande impressão vivente no Brasil foi evidentemente aquilo que chamam da revolução de 1964 que coincidentemente foi feita naquele que denominamos do dia dos bobos. Que em minha opinião nada teve como revolução, pois, aprendi no estudo da história mundial que toda revolução nasce de uma ideia. Que evidentemente não foi o caso da nossa. Ela nasceu da necessidade de se tirar Jango Goulart da Presidência da República. O que em outros países seria conceituado de golpe. E o pior, quando Dilma Rousseff sofreu o seu constitucional impeachment, previsto em lei e seguido em todos os seus trâmites legais, aqueles que se sentiram atingidos pela mudança, trataram o impeachment como golpe.
Isto é ou não é um conceito de universo paralelo?
Mesmo durante o regime militar, foi bem mais fácil se colocar na cadeia aqueles que acreditavam ser terroristas do que os sabidamente corruptos. E este erro propiciou que a corrupção criasse em torno de nossos políticos um elmo, onde “uma mão lava a outra” e do “coça minhas costas que eu coço as suas”. Outra prova inequívoca da impuniade, criada por este universo paralelo do qual nos acostumamos a viver.
Nos Estados Unidos, onde atualmente vivo, existe isto também, mas em muito menor escala. E tem-se uma certeza, se você for corrupto, um dia será pego e não haverá segunda, terceira ou quarta instâncias. É prisão imediata com TOTAL penhora de bens. Se eu não pagar meu condomínio, não tenho direito de sequer usar o elevador, a garagem e demais partes comuns. Acontece isto no Brasil, se houve foro privilegiado, o processo um dia expira, é arquivado e como consequência natural, um dia você é reeleito pela mesma pirâmide anterior que o elegeu, que mama e o mantém no poder, para a vaca que amamenta a todos não ser levada ao brejo.
Isto é ou não é um conceito de universo paralelo?

NOSSO TURFE VIVE UM ETERNO
ESTÁGIO DE UNIVERSO PARALELO
ONDE O SEU INVESTIMENTO VISANDO A GANHAR
ESTÁ COMPLETAMENTE DESASSOCIADO
DA REALIDADE DO QUE A ATIVIDADE
PODE LHE TRAZER DE VOLTA

          Tivemos leilões bem acima das expectativas, até de quem os organizou, seja no âmbito de potros, seja no sentido reprodutivo. Preços bem acima da realidade em que vivemos. Isto seria viver num universo paralelo? Evidentemente que sim, mas dentro de uma visão empresarial que acredita que num futuro, em médio prazo, as coisas podem vir a mudar. Sei que quando as linhas férreas foram construídas nos Estados Unidos atravessando desertos e terras indígenas, vivia-se um clima de universo paralelo. Mas, na realidade, provou-se que era uma visão de um futuro distinto. Mesmo que construído a resultados em longo prazo. E a coisa deu certo.
Hoje, infelizmente, estamos numa condição financeira que não nos permite tentar alçar altos voos. E mesmo os fracassados em outros centros mais desenvolvidos vêm aqui, recebem o que de melhor há, pois são tratados como cerejas do bolo, e respondem - a meu ver - com um sucesso. Aquém do que era esperado por aqueles que investiram alto na empreitada. A exceção de Spend A Buck, fatias bem menores do que o investimento neles feitos. Assim, nota-se que os que chegam inéditos, ainda do breeding-shed do hemisfério norte, têm tido mais sucesso que os que aqui chegaram com o rótulo de fracasso em grandes haras, onde receberam chances no mais alto nível.
Roderic O’Connor está na Índia. Fracassou no continente europeu. Mas aqui chegou sem que nenhuma de sua geração europeia tivesse estado e para mim foi sucesso. Este é um exemplo de alguém que, se tivesse o mesmo apoio logístico de Holy Roman Emperor - aquele que veio no mesmo ano -, poderia ter sido algo maior que este, mesmo que num mercado mais competitivo.
Este é o diferencial que temos que fazer. Não viver no universo paralelo, onde apenas uma vitória cria uma áurea de uma lógica inexorável, de uma total degenerência, esta uma prima de primeiro grau do universo paralelo. Vamos criar um universo real para melhor entendimento e uma possível manutenção de um diálogo.
Um cavalo da grandeza em pista de alguns que aqui aportaram e com as chances que tiveram com nossos mais conceituados criadores exige um percentual de ganhadores de Grupo, no mínimo de 6%. Roderic O’Connor com 91 produtos registrados conseguiu produzir 7 individuais ganhadores de Grupo. Isto lhe atribui um percentual de 7,69%. O que para mim é excelente. Tomemos como exemplo aquele que foi trazido no mesmo ano, e cobriu as melhores éguas do criatório paulista: Holy Roman Emperor teve 107 produtos registrados e até aqui, apenas 3 individuais ganhadores de Grupo, o que lhe atribui um pífio percentual de 2,80%. Vou ter que desenhar, ou achando que foram duas investidas de mesmo nível, não seria uma prova que vivemos em um universo paralelo ou com uma lógica inexorável de uma total degenerência?
Ninguém fala de Refuse To Bend, que chegou a ser apelidado de Refuse To Win, por puro interesse comercial. O que reprovo. Ele veio por dois anos, para o mesmo haras e num desses anos, coincidiu com a presença de Holy Roman Emperor no mesmo centro: São Paulo. Acreditem, pelos números do Stud Book, teve um muito menor apoio logístico dos criadores daquele Estado, o que valeu lhe imputar apenas 142 potros registrados, dos quais a grande maioria oriunda do haras que lhe manteve. E, mesmo assim, com apenas 142 produtos registrados, obteve a notável marca de 10 individuais ganhadores de Grupo. Deu para notar que seu percentual foi estupendo? Melhor que o de Spend A Buck, outro que, como ele, já chegou aqui com o rótulo de fracassado.
Aí eu pergunto: o que você exploraria reprodutivamente? Um nacional filho de Holy Roman Emperor ou de Refuse To Bend? Cada um que trabalhe com a sua própria consciência.
Números são apenas números. Sei disto, mas universos paralelos e degenerências ilógicas também o são.

* Patrocínio - Stud Smith de Vasconcellos, Stud H & R, Stud Magic Island, Haras Tango e Haras Santa Rita da Serra.

 

 
 

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