De volta ao passado

O Derby do Centenário na Memória
Marco A. de Oliveira

Corria o ano de 1975 e despontavam os melhores nomes da geração brasileira radicada em Cidade Jardim, o G.P. Ipiranga (1ª Prova da Tríplice Coroa) deixava antever a árdua disputa que viria pela frente. Naquela prova inicial da Coroa Paulista, um potro zaino de propriedade de Roberto Gabizo de Faria, treinado por A.S.Ventura e com a direção de J.G.Costa, se habilitara. Num final intrincado com vantagem de meio corpo sobre o segundo colocado e este, por seu turno, com um mero focinho de diferença para o terceiro na ordem de chegada. Não mais que ¾ de corpo atrás finalizava o quarto colocado. Fitz Emilius – Marxane – Sang-Chaud – Orff, pela ordem formaram o placar remunerado do G.P. Ipiranga-1975. Dois meses depois viria o Derby Paulista e a expectativa aumentava a cada semana.
Se os candidatos ao Ipiranga totalizaram vinte no partidor da milha em pista de grama, os postulantes ao Derby Paulista chegaram aos vinte e dois. O favorito e candidato natural Fitz Emilius passou à direção ao experiente Eduardo Le Mener F°, Sang-Chaud e o atropelador Orff eram os desafiantes de mais peso. E assim foi! A partida dos 2.400 metros, dada em boas condições, com Lord Sinclair adiante abrindo claro sobre os demais. Na primeira passagem, o líder livrava cerca de cinco corpos sobre o gaúcho Respeitável e o castanho El Tito, pouco adiante do polpudo pelotão agrupado. A esta altura, Fitz Emilius espiava quieto em sexto caldeando a carreira sob o experiente Le Mener F°; enquanto Xaimel – com as cores presidenciais do Haras Jahu – fechava à raia mesmo que junto aos demais. Se foram pela curva da direita com panorama inalterado seguindo pela reta oposta. Na curva da esquerda, os mais cotados se aproximaram em bloco, antevendo a chegada da reta final. Quenabre procurava a cerca interna vislumbrando uma passagem natural com o esgotamento de Lord Sinclair, acompanhavam-no mais abertos Unino – outro adepto do percurso alongado – e Hungarês. Entrementes, Fitz Emilius se mostrava ávido pela dianteira e apenas o controle de Le Mener o sustentava algo mais contido. Mais abertos, Orff preparava sua atropelada derradeira trazendo com ele o cara branca Fortgal e de arminho à vista o zaino Sang-Chaud. Ao entrarem pela reta abriu-se o leque, o antigo líder era tragado gradualmente por vários participantes e a luta se aguçava entre Quenabre, Hungarês, Unino e Fitz Emilius. À medida que os 200 finais se aproximavam, o apelo último dos pilotos de Orff (J.Machado), Fortgal (Ademir Deus) e Sang-Chaud (L.A.Pereira), puxando as fustas, mostrava a que vinham. Neste momento, a habilidade de um cancheiro como Eduardo Le Mener F° faria a diferença. Sereno, sabendo a quem dirigia, o jóquei do candidato à 2ª Coroa dominava seus primeiros oponentes e passava a se ocupar dos atropeladores de última hora. O primeiro a enfraquecer seu ímpeto foi Fortgal, no entanto Orff e Sang-Chaud seguiam acesos. Então combinou-se a genética do herdeiro do tostado inglês Honeyville em Delatora (por Mogul) com a lucidez de seu ginete. Separados por um comprimento e meio – com o vencedor tocado apenas na boca – Fitz Emilius cruzou em primeiro secundado por Orff no espelho final. A apenas uma cabeça do segundo, chegou em terceiro Sang-Chaud, com Quenabre completando o placar a menos de meio corpo. Depois, muito próximos, Fortgal, Unino e Hungarês. Mais distantes os demais quinze competidores, pela ordem: Corre Bem, a potranca Super Star, Xaimel, Snow Boot, Arrepio, o primeiro ponteiro Lord Sinclair, Dirigente, Io Quiero, Mateiro, Ives, o tordilho Boleador, Respeitável, Orlando, Xengo e El Tito. O tempo alcançado bateu em 2’32”2/10 para a grama em estado leve.
Lembrando que o vencedor procedia do Haras São Lázaro (SP), sua bela performance o garantia como candidato natural à ambicionada Terceira Coroa. A especulação passou a ser se o representante das cores “branco, cinto e braçadeiras pretas, boné vermelho” – que noutra década foram ostentadas no Brasil pelo craque argentino El Aragonés (Stud Piratininga) – repetiria o feito alcançado mais proximamente – então há oito anos – pelo malacara Giant (1967). Só o mês de dezembro traria a resposta, por ocasião do G.P. Consagração. Então, um final de reclamação frustraria a intenção de Fitz Emilius diante de um pequeno guerreiro chamado Orff. Contudo, esta já é uma outra história.

O Derby do Centenário do JCSP, aos 15.11.1975, em dois momentos: a cerca de 50m do disco e ao cruzarem o espelho final. Fitz Emilius ia sustentando sua vitória com Orff em segundo e Sang-Chaud em terceiro. Aparecem ainda Quenabre (por dentro), Unino (de permeio) com Hungarês e Fortgal por fora.

 

 

 
 
 

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