De volta ao passado

Um G.P. BRASIL Nota DEZ
Marco A. de Oliveira

Dificilmente o conjunto da obra consegue ser moldado de maneira tão gratificante para o expectador como o ocorrido na tarde ensolarada de nove de junho próximo passado, no Hipódromo da Gávea. A organização do JCB para o evento maior do turfe brasileiro foi primorosa, entrevistas com gente de turfe que conhece e vive este esporte fabuloso. Não com meros curiosos de ocasião. O marketing foi perfeito e a efetivação propriamente dita, indelével. De mais a mais, as emoções iniciadas na sexta-feira foram coroadas por um G.P. Brasil irretocável, com uma verdadeira lição de vida, antes de mais nada.
Para não me alongar desnecessariamente, vou direto ao momento máximo da tarde domingueira, a disputa da milha do G.P. Presidente da República seguida do prato principal o G.P. Brasil-2019. Os 1.600 metros do G.P. Presidente da República foram emocionantes desde a largada, quando o titular da parelha n°. 2, Bold Retriever – levado pelo experiente Marcelo Almeida – destacou-se à frente com a nítida intenção de fazer carreira para seu companheiro de stud, Super Bold – conduzido pelo não menos experiente Carlos Lavor –. Assim, o ponteiro foi até onde alcançavam suas forças, vigiado por Grand Cru (12). Para só entregar-se nos duzentos finais diante do ataque de seu seguidor, bem como do n° 2-A, Super Bold e da avassaladora atropelada de Glory Boy (14). Este, tomou a dianteira nos derradeiros metros adjudicando-se meritoriamente à milha principal. O tempo foi 1’35”94/100 (G.P.), com Grand Cru (a um corpo), Super Bold (a ½ cabeça do segundo colocado) e Bold Retriever a seguir. O filho do norte-americano Put It Back na nacional Tout Est Bien (por Wild Event) é um castanho de três anos, que venceu sua terceira carreira em apenas quatro apresentações só saindo derrotado na estreia. Seu preparo é do ex-jóquei e hoje competente treinador Marcus Aurélio, pertencendo ao Stud Juliana e Luiz Guilherme, sendo um animal egresso do consagrado Haras Santa Maria de Araras. A ajustada direção coube ao conceituado Waldomiro Blandi.
O G.P. Brasil correspondeu ao sétimo páreo da reunião maior do turfe nacional. Havia toda uma expectativa na parelha do Haras Regina, composta por seus alazões Olympic Icecream (1) e Olympic Hollywood (1-A), este último fácil vencedor do G.P. São Paulo no mês de maio que passou, em Cidade Jardim. Favoritos com algum destaque tinham como rivais de maior respeito Agassi – vencedor da preparatória –, o inquieto Taksim, além de Leviatan, Or Noir e a égua Gaivina – única fêmea do páreo –. Estreante na Gávea, o paulista Avião Sureño não poderia ser descartado, mediante suas meritórias atuações no Hipódromo Paulistano. Dada a largada pontualmente às 17h13min, Olympic Icecream fez seu papel de coelho da parelha favorita e foi à frente. Mas antes mesmo de cruzarem o espelho na primeira passagem, Taksim (5) – último a colocar-se nos boxes – tomou o segundo e passou a desafiar o ponteiro. Entrementes, Olympic Holywood ficava espiando a luta, seguido de perto por Agassi (4) e Devil Cat (2). Este panorama não mudou, exceto que – ao entrarem pela reta oposta – a dupla que brigava pela ponta apartou-se progressivamente, abrindo luz sobre os demais. Já na segunda metade do oposto, Taksim tomou resolutamente a ponta e Olympic Icecream começou a dar por finda sua participação. Da retaguarda, cresceram Olympic Holywood – que teve de apressar o passo pela fadiga de seu parceiro – e Deep Dream (12), com Agassi, Devil Cat também buscando melhorar. Assim findaram a curva e entraram pela reta final. Taksim então era ponteiro abrindo a diferença e, nitidamente, a carreira de Olympic Hollywood não o colocava em risco, bem como Agassi e Deep Dream que mostravam nítido desgaste. Já da retaguarda, dois animais atropelavam com muita força, George Washington (10) e Or Noir (7), com Leviatan (3) também melhorando. Contudo, a ação de George Washington era bem maior. A centro de pista, o pilotado de Marcelo Gonçalves – tão criticado pela pouca felicidade no G.P. Major Suckow de sábado à tarde – voava baixo, dominava os demais e cruzava o disco 3 ½  comprimentos adiante do atropelador Or Noir, deixando o valente Taksim a ¾ de corpo em terceiro, com Olympic Hollywood em quarto e completando o placar remunerado Leviatan. A seguir, pela ordem: Garrison, Galaxy Runner, Tanto Riso, Agassi, Gaivinia, Avião Sureño – em pálida apresentação sem seu piloto preferencial –, Deep Dream, Olympic Icecream e Devil Cat. A marca alcançada para os 2.400m, 2’27”94/100. Uma joqueada redentora de Marcelo Gonçalves, tapando a boca de muitos que acreditam que punir com palavras é maior que a dor de um profissional abatido por um equívoco fatal. Isso já seria o bastante; porém, nada melhor que um dia após o outro. Sabendo-se que errar é humano, mas superar é sublime. Quanto ao trabalho de Luiz Esteves como treinador, dispensa comentários. Não são por mero acaso as agora três vitórias consecutivas no G.P. Brasil. Emoção incontida e plenamente justificada do titular do Stud Happy Again, Maurício Chaves, vendo brilhar sua farda “branco, letras “M” e boné azuis”, diante de uma plateia reconhecida pelo grandioso espetáculo. O criador do potro filho dos nacionais Redattore e Princesa Carina (pelo irlandês Know Heights) é o campeoníssimo Stud TNT. O n°. 10, George Washington, de atuação do mesmo número, só havia vencido até então um páreo de turma em 1.900m (areia), aos 11.08.2018. Passa a ser – rateando 11,10 por boleto – o mais novo Campeão do G.P. Brasil e de maneira insofismável. Grandioso, meritório, espetacular e tantos quantos adjetivos no sentido positivo possam ser acrescentados.
Sem deslumbres, indagado sobre a possível participação de George Washington na Breeders’ Cup, o treinador Luiz Esteves praticamente descartou tal possibilidade. Afinal, há muito o que fazer. E a pressa, por mera vaidade ou ganância, pode anular as verdadeiras possibilidades de um lídimo Campeão. Enfim, foi um G.P. Brasil de encher os olhos, resgatando o verdadeiro brilho da maior festa do turfe brasileiro.

Os protagonistas de um G.P. Brasil histórico: George Washington – taxado de mero ladrão de trabalhos – se traduz agora como o cavalo que venceu como um Presidente e correu como um verdadeiro Lord da raia traz em seu dorso Marcelo Gonçalves, ainda em lágrimas e com um punho cerrado como a clamar pela redenção que veio num galope triunfal. O proprietário Maurício Chaves após viver um êxtase de agradecimento e, ao fundo, o tricampeão Luiz Esteves cedendo entrevista.

 

 
 
 

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