O EMBLEMÁTICO G.P. SÃO PAULO 1975
Marco A. de Oliveira

Durante muitas décadas, no século que passou, o turfe brasileiro foi um mero seguidor das vitórias argentinas em suas principais provas. Mais adiantado, desde as importações de maior qualidade iniciadas há mais tempo bem como pelo melhor preparo de seus campos e técnicas que sobrepujavam as nacionais, o criatório platino imperou em hipódromos locais. Algumas vezes, inclusive, bastava um cavalo de média expressão vir bem preparado e só restava aos representantes indígenas disputarem a dupla. Só para recordar dois exemplos, nos GGPP Brasil de 1958 e 1968, quando Espiche e Arsenal – mesmo sendo animais de discreta participação clássica em seu país de origem – deram conta da magna prova local. Em Cidade Jardim não foi diferente, só mesmo um ícone como Adil para transformar três GGPP São Paulo em gratificantes sequenciais êxitos para o criatório brasileiro, vergando os craques internacionais ao seu domínio em tempos tão adversos. Recordando: em 1955, Adil deixou El Aragonés em terceiro; em 1956 foi a vez do campeoníssimo Tatán curvar-se diante do zaino negro do Haras Jahú; finalmente, em 1957, plasmou seu inigualável Tri na segunda maior prova do nosso turfe, sobrepujando então não os estrangeiros – mas o Tríplice Coroado nacional Timão.
Nas décadas seguintes – não com tamanha frequência, mas igualmente com vantagem – os animais forasteiros vinham coroar-se de êxito por aqui. Arturo A, Snow Crown, o já comprometido Maanin, o chileno Trenzado, o recordista Tagliamento, o veterano Decorum, o galhardo Severus (num final de cinema) marcaram vitoriosamente os anos sessenta e limiar dos setenta na magna prova do Hipódromo Paulistano. Na virada para os anos setenta, Viziane traçou uma bela expectativa, logo frustrada pelo G.P. São Paulo do Sesquicentenário quando El Virtuoso e Locomotor humilharam novamente o criatório verde-amarelo. Figurón, chileno, brincou de correr em 1973 e no ano seguinte Moraes Tinto, um polpudo bico branco porteño, venceu por abandono as duas principais provas brasileiras. Parecia que aquele rosário não teria fim. Contudo, o ano de 1975 – justamente o do Centenário do J.C.S.P. – trouxe uma gradual mudança da regra.
O G.P. São Paulo do Centenário – Nada menos de dezessete concorrentes encararam o starting-gate naquele carrancudo 4 de maio, em Cidade Jardim. Entre eles os nomes argentinos do tostado Snow Body, do castanho El Andaluz, do tordilho Good Bloke, aliados ao da já “naturalizada” égua La Ranchera (vencedora do G.P. 25 de Janeiro); além do peruano Satanás e do chileno Jadar, ecoavam como possíveis ganhadores. Entre os nacionais, o graúdo Manacor (vencedor do G.P. Raphael A. Paes de Barros), o tostado Uleanto e o potro revelação Yanbarberik (ganhador do G.P. 14 de Março) surgiam como os mais fortes representantes. Em meio a estes um zaino negro de quatro anos, não mais que mediano no porte e ganhador de apenas dois clássicos (G.P. Jockey Club de São Paulo-1973 e G.P. Governador do Estado-1974) era pouco comentado por certa irregularidade na campanha e manhas que o obrigavam a correr sempre de antolhos. Gadahar (Earldom II e Queeny, por Sandjar), representante das históricas sedas de seu criador e proprietário (Haras Faxina), fora seu pomposo nome muçulmano, parecia de difícil previsão favorável. Entretanto... Dada a partida e o galopador Manacor dividiu as honras de liderança com o favorito El Andaluz, deixando logo atrás o negro Satanás (pelos paus), o cara branca Jadar (de permeio) e o tordilho Yanbarberik com Uleanto mais abertos. O pupilo do eficiente profissional Amazílio Magalhães era então somente décimo primeiro colocado, com suas sedas tigradas envergadas pelo saudoso Loacyr Cavalheiro. Assim o train permaneceu por toda a reta oposta quando, já findando este trecho, Good Bloke, Snow Body e o próprio Gadahar moveram-se buscando o grupo de dianteira. Ao entrarem pelo linheiro, Manacor e El Andaluz apresentaram fadiga e logo foram superados por Snow Body, Satanás e – quem diria? – o mascarado Gadahar que voava por fora. A titânica liça prevaleceu por quase metade do linheiro final até que, a cinquenta do vencedor, Gadahar matou a resistência do peruano e do argentino, cruzando a meta meio corpo adiante do filho de Snow Cat. A manta meia dúzia parecia brilhar, mesmo numa tarde sem sol. Tal como se fizeram reluzentes as esperanças nacionais que, meses depois, consolidariam seu lume com o tordilho Orpheus, no G.P. Brasil.
A vespertina épica jornada ficou marcada para sempre nos registros da época. Até mesmo pela presença ímpar do proprietário e fundador do modelar Haras Faxina, cheio de gáudio para buscar pela rédea seu exitoso pupilo. Henrique de Toledo Lara viveu, sem sombra de dúvidas, um momento de glória que desde os tempos de Narvik não lhe era tão especial. Aquele galardão mudaria para sempre, com poucas exceções a contar dali, uma rotina até então discreta para o criatório nativo.

À esquerda, Gadahar e Loacyr Cavalheiro iniciam o retorno triunfal à pesagem. À direita, a lendária figura do criador-proprietário e fundador do Haras Faxina que sorri segurando o digno ganhador.

 

   
     


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