De volta ao passado

RECORDANDO UM BENTO NO CRISTAL
Marco A. de Oliveira

Era 1981, trabalhava na retaguarda das apregoações e rateios na Rádio Difusora junto à equipe de Vergara Marques. Zirbo despontara recém revelado pelo pródigo e efetivo turfe pelotense. Estreara no Cristal vencendo com autoridade em prova dos três anos perdedores e já se candidatara ao Comparação com chances. Nos 2.000m deste páreo clássico na pista de grama pesada, sobrara também para a parceria do dito G.P. Revolução Farroupilha. Semanas depois o potro negro das vistosas sedas “laranja, diagonal preta, mangas e boné quadriculado em laranja e preto”, de Antônio F. Martins, se adjudicava no Grande Criterium, deixando lejos Iamil e um punhado de outros coetâneos, agora na areia leve dos 2.200m (G.P. Jockey Club do Rio Grande do Sul). Assim, se constituía na principal espada local para aquele Bento de raia entre úmida e pesada, do mês novembro de 1981.
Contudo, vencer o Bento para um potro nunca foi tarefa comum. Estensoro rebocara a parceria em 1958, nos 3.200m de Moinhos de Vento; Polar Vênus repetira o feito em 1963, já no Cristal, com a distância algo reduzida para os 3Km. Agora, em 2.400m, teoricamente a empreitada talvez fosse menos densa; porém, a parceria nunca fora tão categorizada. Estensoro ganhara dos “caseiros”, Polar Vênus tivera – além da prata da casa – apenas um forasteiro, o arenático Dunkerque e este – cá prá nós – não era tudo aquilo. Em, 1981, no entanto, Zirbo enfrentaria Artung – vencedor do Bento anterior – com o melhor jóquei brasileiro do momento, Juvenal Machado da Silva. Além disso, pegava pela frente o melhor cinco anos em atuação no território do centro do País, o alazão Clackson, no auge da forma. Dos demais, a presença do quatro anos Efesivo (made in Rosa do Sul), do veterano mas sempre competitivo Anglicano e do argentino Krompezai (que acabou virando forfait)  não poderia ser de todo descartada. Já da parceria local, o ganhador do Protetora-1981, Passeur e a parelha Angriff – clássico no centro do País e há pouco integrado aos habitantes da vila hípica do Cristal – com o potro Iamil – aguerrido e bem a gosto na distância – eram adversários ao menos respeitáveis. O fato é que o potro treinado por Ivo Valter Pereira gozava de seu melhor. O semanário Turfe de Bolso, em sua edição comemorativa do Bento-1981, destacava como nome principal Clackson, inimigo maior o zaino Artung, deixando – prudentemente – o potro gaúcho com a seguinte afirmativa: “é um potranco que não vai fazer feio”. Entretanto... Apresentado em condições impecáveis, com a manta n°. 3 e Moacyr “sarará” Silveira a bordo, Zirbo chamava a atenção ao fazer o cânter na tarde gris de 15 de novembro. A comitiva pelotense pululava em meio aos turfistas locais, como a antever a grande façanha que se avizinhava. Nas apregoações finais para aquele sexto páreo da tarde domingueira, Zirbo corroborara a proposta terceira força da Revista Turfe de Bolso. Todavia, ele era bem mais que isso. Dada a partida e pouco a pouco o panorama da carreira tornou-se favorável ao filho de Egoísmo e Leréia (por Mât de Cocagne), nativo do Mondesir já nos campos de Bagé. Ao entrarem pela reta final, com Clackson atropelando bem aberto e Artung dando-se por vencido, só um nome era notado para candidatar-se ao Bento-1981. E este chamava-se ZIRBO. Ao cruzar o espelho com vários comprimentos à frente de Clackson, com Efesivo a quatro em terceiro e Artung esgotado em quarto, os demais eram meros oito figurantes rebocados a seguir, pela ordem: Iamil, Artemus, Snow Scotch, Passeur, Fratelli City, Angriff, Fiberglás e Anglicano. O tempo anotado foi 2’34”2/5 (A.Ú.) e o rateio do ganhador 3,20 na ponta e 1,50 no placê, com a dupla pagando 5,00 redondos.
Tarde de gáudio para o turfe local e mormente para os turfistas de Pelotas, campeões em incentivo e vibração, os que verdadeiramente transformaram as fotos da vitória em motivo de festa em cada vinda ao Cristal. Algo que ganhou corpo – e isto testemunhei frequentemente – com a revelação do potro Sadalidro em 1972. Dali por diante, nunca mais uma foto vitoriosa foi algo para poucos. 

 

Ao alto, a reta de chegada em seus últimos tramos vista de frente, Zirbo ponteia fácil a centro de pista, Clackson bem aberto é segundo, Efesivo – de antolhos – vai sobrepujando ao esgotado Artung, enquanto o potro Iamil – de arminho – fecha o placar remunerado. Os demais seguem a reboque. Na foto maior, após a conquista notável, o freio Moacyr Silveira e o craque Zirbo têm como moldura o público que superlotava as populares.

 

 
 

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