De volta ao passado
 
 
 

“HÁ MEIO SÉCULO O BENTO DE DILEMA”
Marco A. de Oliveira

Dos Bentos que guardo na memória ainda no tempo de guri, está o de 1967. El Asteroide (Elpenor e Al Oina) consagrara-se como – até então – o único cavalo a vencer três Bentos; mais que isso, três consecutivos ou – como acrescentavam alguns – quatro para valerem três. Já que em 1964, após uma largada em falso, alguns pararam e outros seguiram correndo os 3.000 metros da mais tradicional prova do turfe rio-grandense. Dos que completaram o percurso do Bento que não valeu, o primeiro a cruzar a meta foi justamente o reforçado castanho de Luiz Ranulpho de Lima Espínola que corria o Grande Páreo ostentando a blusa de seu criador Breno Caldas (rosa, ferraduras e boné preto). Pois bem, em todas as três oportunidades que valeram, El Asteroide vencera sem muita folga, mas com categoria. Atropelador por excelência, bateu – com Albênzio Barroso – por meio corpo à uruguaia Invitada (Rigoberto e Sociable), em 1964; por cerca de um corpo ao temperamental Interlagos (que acabou distanciado em favor do uruguaio Agasajo), em 1965, novamente levado pelo “feiticeiro”; já em 1966 – então com a condução do gaúcho Oracy Cardoso – derrotou o paulista Carataí (Eboo e Radiosa) por pouco mais de um comprimento. Chegava pois, o ano de 1967 e a tentativa do tetracampeonato.
Há que se considerar que, naquele Bento que ora completa meio século, El Asteroide já vivia um natural ocaso de campanha. Os sete anos pesavam e a condição da raia no dia da prova lhe era ainda mais desfavorável, chovera desde as primeiras horas daquele domingo de doze de novembro e a tarde gris revelava poças em várias partes do percurso. Fora isso, havia um quatro anos paulista, Dilema (Major’s Dilemma e Ópera), do Stud Maioral, que despontara como um dos melhores arenáticos de Cidade Jardim. Sem contar que o campo da magna prova se reforçava com outros tarimbados representantes do centro do país. Full Hand (Helíaco e Cligeuse), um cinco anos do Stud Paula Machado, que rivalizava-se com Dilema como seu maior adversário no território da areia no Hipódromo Paulistano. King Sun (Flamboyant de Fresnay e Elaine), um belo alazão do Haras Ipiranga, além do veterano Deado (Prosper e Noiva), do Stud Mondesir, o qual já competira no Bento de 1965, sem sucesso, contudo ia muito bem na referida pista e na distância longa. Os demais não intimidavam, exceto três nomes a serem apreciados, nenhum gaúcho, mas todos já radicados por aqui: Gobelin (Fastener e Ballade), paulista e treinado com esmero pelo seu Nenê (José Celestino da Silva); Fermont (Wood Note e Côte d’Espagne) clássico em Cidade Jardim e recém incorporado à melhor turma do Cristal pelo sr. Firmino Andreoni, sendo treinado por um perito em Bentos, Nereu Miltzarek; mais o tordilho Benedicto (Bellman e Becacina), um seis anos argentino preparado por aqui por Armando Wolff. Benedicto vencera dois dias antes o G.P. O.S.A.F. ao P.S.C. (2.200m) e, por isso mesmo, era julgado “impossível” pelos “entendidos” de se rivalizar – menos de 48 horas depois – aos demais favoritos em condição de vitória. Ao lado de meu avô paterno assisti àquele Bento, ali do pavilhão popular. Saíram agarrados Fermont e Dilema já com o tordilho Benedicto – por fora – braceando junto a eles e King Sun próximo. Assim vieram desde a meta dos 3 km, pela reta final na primeira passagem e enfrentaram o disco seguidos de Gobelin, Full Hand, Deado, Savary e os demais. El Asteroide corria no seu estilo, lá pelo décimo posto, para a tradicional arrancada a partir da metade da reta oposta. Atropelada esta que custou algo mais – comparada aos anos anteriores – para acontecer. Veio só nos 1.200 e já sem a mesma explosão. Era nítido que o herói de três Bentos já não era o mesmo. No percurso da curva, Full Hand e Deado tentaram uma aproximação aos quatro primeiros, porém – enquanto Fermont declinava – Gobelin ganhava asas e Benedicto – o “improvável” – já lutava às ganhas contra Dilema bem dosado pelo Clóvis Dutra. Ao virarem para o linheiro final, definitivamente, o páreo ficou entre ambos. Com muito custo El Asteroide dobrara Deado, King Sun e Full Hand, no entanto não ameaçava nem mesmo a Gobelin que se adonara do terceiro posto. Oracilio Santos encrespara de vez com seu tordilho argentino para cima do castanho Dilema, ante a estupefação da maioria, todavia a maior categoria do cavalo paulista e a habilidade de seu piloto o levaram a vencer o proposto Bento por um comprimento e meio no disco de sentença. Com a manta quatro no dorso, Dilema voltava e era recebido na raia – bastante empoçada – por seu proprietário. O sorriso sereno do dever cumprido e a satisfação por seu primeiro Bento estampavam o rosto do jóquei Clóvis Dutra, gaúcho e radicado em SP.
Quanto a mim, com meus onze anos de idade, coube vislumbrar com tristeza a subida do meu cavalo dos sonhos – tricampeão em Bentos – à repesagem, contentando-se com um quarto lugar. Realmente o tempo passara para todos, ainda mais para um PSI. Restara a alegria do páreo anterior, em ver a três anos Corejada (Elpenor e Estupenda) humilhar a clássica Mouette em record para os 1.820m, no G.P. Mal. Arthur da Costa e Silva. No ano seguinte, a tordilho acalentaria meus sonhos de piá vendo-a Tríplice Coroada, ganhadora do Protetora e do Bento. Única – até hoje – a fazê-lo numa mesma temporada. Esse era o turfe de outra época. Composto bem mais por ícones equinos, jóqueis ídolos e treinadores que levavam torcida. No entanto, isso também já foi tragado pelo tempo. Quem viveu, lembrará para sempre.

 

Na foto ao alto a primeira passagem pelo disco onde Dilema, Fermont (de permeio) e Benedicto (por fora) lutam pela ponta, encobrindo a King Sun e com Gobelin logo depois. Na outra, Dilema escapa para o disco desvencilhando-se do valente Benedicto.

 

 
 

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