De volta ao passado
 
 
 

"BRANDING – O Ruano que Humilhou YATASTO"

por Marco A. de Oliveira

“República Argentina, año 1952... Re cuerdos de un antiguo vuelo...”
Corria o ano de 1952, pesaroso para os que acompanharam a agonia da maior mulher da América Latina, o braço esquerdo do peronismo falecera aos 26 de julho. O governo do admirador de Mussolini – notem o paradoxo – e torcedor do Racing Club também começava a agonizar. No turfe, e isso é o que nos move, reinava - já não tão incólume - o melhor cavalo da América Latina, YATASTO. O filho de Selim Hassan e Yucca, egresso do Haras Las Ortigas (ARG), fora adquirido em subasta, em 1950, pela Caballeriza Atenas (azul, brazales negros, gorra oro). Ganhador dos Clássicos Guillermo Kemmis (1.200m – CN), Santiago Luro (1.200m – CN), Raúl y Raúl Chevalier (1.400m – AH), Montevideo (1.500m – AN) e Centenario Miguel Cané (1.500m – AN), juntara no segundo semestre de 1951 a Cuádruple Corona (Polla de Potrillos, Jockey Club, Nacional e Carlos Pellegrini), mas também sofrera percalços. Sempre ganhara longe, sobrando, apartado de seus adversários. Contudo, o pupilo de Juan Ramón De La Cruz – por insistência deste e a contra gosto de seu proprietário – perdera uma parte do glorioso binômio “Yatasto – Contreras”. O caráter boêmio e aparentemente irresponsável de Juan Carlos Contreras irritara sobremaneira a De La Cruz e este convenceu a Augusto Sbárbaro – uruguaio e titular da Caballeriza Atenas – com sua tese: ”para el mejor caballo, el mayor jockey”. O novo ano de campanha começara mal para Yatasto, mesmo rengo ganhara o Pellegrini-1951 facilmente, tal a imensa categoria que possuía e por obra de Conteritas, sua extensão corpórea em molde de jinete. Contudo, no início de 1952, fora queimado de um garrão, como pressuposto da única forma de amenizar o mal e prosseguir campanha dentro do que se dispunha na época. Tal doloroso tratamento seria motivo de ódio eterno de um cavalo aos humanos. Mas cavalos não são gente, que bom para eles. E viera Leguisamo e a cada floreio se acentuava a predisposição de não se aceitarem mutuamente. O maior jóquei e o melhor cavalo eram seres, genuinamente, incompatíveis. Quem, algum dia, já não suportou – sem aparente razão – a simples presença de outrem?... Digo-lhes, com os animais não é diferente. O maior jóquei tentou moldar o melhor cavalo ao seu vitorioso método; contudo, rigorosamente, o melhor cavalo não precisava de regras. E sobreveio o fracasso. Um convite ao G.P. São Paulo chegara com insistência e lá se íam Juan De La Cruz, Yatasto e seu jóquei. Obviamente a intenção do JCSP era de contrapor Gualicho a Yatasto, a medirem forças e alcançar um recorde de público e apostas. O também argentino Gualicho (The Druid e Golconda), defensor das sedas brasileiras da sociedade Almeida Prado & Assumpção (verde e cinza em listras horizontais), era coetâneo de Yatasto. Saíra anônimo de seu país e se revelara craque em Cidade Jardim. Naquela tarde de maio, no cânter da magna prova do Hipódromo Paulistano, Yatasto estava visivelmente sentido. Entretanto, por insistência da Diretoria do Jockey Club de São Paulo, foi instigado a correr a pretexto de não decepcionar o imenso público. Mesmo rengo – e uma coisa é estar manco e outra é estar rengo – lutou bravamente para chegar em quarto, depois de Gualicho, Panther (ambos argentinos) e o francês Fort Napoléon, os dois últimos à diferença mínima. No dia seguinte, a crônica brasileira faria o possível para ironizar Yatasto em relação a Gualicho. Mera tolice sensacionalista. Um estava em plenitude física, o outro padecia de um problema severo. Um cavalo rengo não tem tração para acionar seu empurrador.
Mas um rei é um rei e Sua Majestade Yatasto estava combalido, sentido, mas jamais derrotado. De volta ao ninho, Yatasto venceu – apesar del maestro – os Clássicos Chacabuco (3.000m – AP) e General Pueyrredón (4.000m – CP) e levantou espetacularmente o Gran Premio de Honor (3.500m – AN). Avizinhava-se outra vez o Pellegrini e com ele um novo desafio, um potro ruano chamado Branding (Burudun e Vengadora) vencedor da Polla de Potrillos (1.600m – AN) em La Plata, seu hipódromo de origem, além do Clássico Cel. Miguel F. Martínez (1.800m – AP) e mais as provas da Triple Corona, G.P. Jockey Club (2.000m – AH) e G.P. Nacional (2.500m – AF), todas em Palermo. Branding
defendia as cores da Caballeriza San Andrés (oro, mangas y gorra azul), do turfe platense e um dos sócios era o empresário Juan Ramón Duarte, irmão da já então saudosa María Eva Duarte Perón (Evita). Branding era treinado por Julio Grimaut e pilotado pelo sereno Héctor C. A. Padula, que lhe conhecia todos os dengos. Era chegada à tarde ensolarada e quente de 30 de novembro. Desde sua inauguração (08.12.1935) jamais San Isidro se vira tão tomado de público. Não só burreros, mas gente de todos os lugares que queriam ver o ícone Yatasto e seu maior desafiante o potro ruano de La Plata. Compunham, ainda, o reduzido lote a poldra Satánica e os quatro anos Sideral e Pretexto – respectivamente das caballerizas Palermo, Chapadmalal e Salamanca – todos animais com alta qualificação clássica; mas – a esta altura – meros coadjuvantes. O uruguaio Folletín declarara forfait. E Gualicho? Afinal, convites não faltaram. De mais a mais, vencera após o G.P. São Paulo também o G.P.Brasil, ambos de forma inapelável e categórica. Mas, seus interessados preferiam não arriscar. Talvez o fiasco da lourinha brasileira Garbosa Bruleur (Stud Buarque de Macedo), no Pellegrini de 1948 (9° para Académico), os tenha intimidado.
E veio a gran Carrera e em tarde gloriosa Branding (52 kg) ganhou como e quando quis, em segundo Sideral (a 2 ½ corpos) levando 60 kg, em terceiro Yatasto (a 1 ½ corpo) deslocando os mesmos 60 kg, depois Satánica (50kg) e Pretexto (60 kg). Sem ofuscar quaisquer méritos da vitória humilhante que Branding infligiu a Yatasto, vamos a alguns detalhes: Leguisamo – para espanto geral – não buscou a luta com o potro ruano; ao contrário, parecia conter o zaino Yatasto desde a largada por todo o tiro oposto a cerca de quatro corpos, adiante apenas dos três menos cotados. Somente na última curva – prolongamento da diagonal de San Isidro – aproximou-se. Então, Yatasto não respondeu e voltou a perder forças na reta final. Rengo ou não, este não seria o fim. No ano seguinte – atendendo a um convite do potente Stud Seabra – Juan Ramón De La Cruz bandeou-se para Cidade Jardim e por lá ficou por cerca de sete anos, treinando com sucesso e ajudando a revelar craques como Escorial (primeiro cavalo brasileiro a vencer o Pellegrini). Leguisamo era afastado definitivamente pelo proprietário de Yatasto, para seu posto foi contratado o experiente Rubén Baltasar Quinteros e seu treinador passou a ser o competente gitano Nicolás Ojeda. Quinteros levou com dignidade – sem contrariar sua índole de craque – Yatasto a um encerramento de campanha digno, no decorrer de 1953. Acrescendo ao seu já vasto cartel o G.P. Municipal (3.000m – AN), em Maroñas, os Clássicos Otoño (2.000m – CN) e Gral. Belgrano (2.200m – CN), além do G.P. San Isidro (3.000m – CN), os três no césped isidrense; e mais os ClássicosVicente L. Casares (2.500m – AN), Chacabuco (3.000m – AH) e Palermo (1.600m – AH), acumulando como despedida vitoriosa seu segundo e derradeiro G.P. de Honor (3.500m – AN) quando deixou o mesmo Sideral que secundara Branding a quase 50 metros. Sendo os últimos clássicos en la arena palermitana.
Quanto ao ruano que humilhou Yatasto, acometido de um locomotor, nunca mais correu. Após várias tentativas em recuperá-lo foi negociado à reprodução, em outubro de 1954. A Caballeriza San Andrés enfraqueceu e caiu no anonimato. Juan Ramón Duarte foi encontrado morto (09.04.1953) por possível suicídio (?). Era mais um prenúncio da decadência do governo Perón, derrubado em 1955. Permaneceram as questões: que fatos teriam levado a ação não convencional do jóquei de Yatasto no percurso daquele Pellegrini (1952), literalmente “matando da boca” sua montaria? Houvera alguma ameaça para que Yatasto facilitasse a comodidade do cavalo da Caballeriza San Andrés para vencer? Pouco importa. Afinal, a história costuma lembrar apenas o que está nas estatísticas.
“Ahora, con permiso, me voy a otros vuelos. Mientras tanto, un cuervo vive de volar por alguna parte del pasado.”

O ruano Branding - em sua tarde de glória - com Héctor Padula no dorso, realiza o passeio para o G.P. Carlos Pellegrini-1952.

 

 

 
 

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