De volta ao passado

“PENNY POST – El Crack Que No Hay Logrado Un Pellegrini”
Marco A. de Oliveira

A História mais que centenária (desde 1887) da maior prova turfística latino-americana, o Gran Premio Carlos Pellegrini – disputado desde 1941 no césped isidrense – traz algumas peculiaridades de certa forma não tão incomuns no mundo do turfe. Assim como alguns ditos azarões levantaram provas de alto nível, surpreendendo as possíveis barbadas; por outro lado, há aqueles animais que mereceriam, por sua campanha clássica e condição de popularidade, conquistar os maiores galardões que por detalhe não conseguiram. Este é o motivador de nosso trabalho desta tão esperada semana Pellegrini-2018.
O tostado Penny Post, nascido nos idos de 1945 no maior haras argentino da época e quarto maior do mundo, o Chapadmalal, da família Martínez de Hoz; trazia no sangue a linhagem invulgar de Embrujo (Congreve e Encore, por Your Majesty) em Encomienda (Parwiz e Estampilla, por St. Wolf). Ora, Embrujo foi de largo o melhor produto argentino da geração entrante às pistas em 1939 e seu pai o zaino Congreve, além de multilaureado líder padreador em estatísticas dos anos 30 e 40 do século passado, tivera uma campanha irretocável apesar dos problemas que volta e meia acometiam seus locomotores. Sua mãe, por seu turno, trazia o veio sanguíneo do zaino colorado britânico Parwiz ganhador do Gratwicke Produce Stakes (2.413m) e do City and Suburban (2.011m), além de colocações nobres que valeram sua importação para o criatório argentino. Pois bem, Penny Post já mostrara de potro que poderia ser o líder de sua geração e assim o foi. Porte avantajado, linhas perfeitas e galope harmônico. Adquirido por elevada soma pela Caballeriza La Giralda, das tradicionais sedas “colorada, mangas a listas, faja y gorra blanca”, foi entregue ao destacado cuidador Guillermo Cervi. Penny Post estreou vencendo prova em 1.400m e, mesmo atacado dos remos, secundou Eton por apenas pescoço em prova para ganhadores nos 2.500m. Tal progresso fez com que seus interessados o inscrevessem no maior clássico para os três anos, o Gran Premio Nacional em distância idêntica. O alazão Cruz Montiel, que até então despontara como melhor da idade, foi franco favorito tendo de longe nas apostas Penny Post, Faubourg e Eton como forças seguintes. No desenrolar da prova, Penny Post buscou estar entre os primeiros e bem dosado por Oswaldo Pellegrino conteve o ataque avassalador de Cruz Montiel que chegou a ¾ de corpo em segundo. A dimensão da maiúscula vitória naquele memorável G.P. Nacional, foi proporcional à confiança que passou a ser depositada nele e Penny Post candidatou-se ao seu primeiro Pellegrini. Porém, em uma semana complicada, o tostado estava algo descaído e suando muito no dia da magna prova, não passando de um quinto posto para o cinco anos Académico que – sob a batuta de Irineo Leguisamo – tornava a vencer o clássico maior dois anos depois. A segunda temporada de Penny Post nas pistas foi quase perfeita, ao longo da mesma, o pupilo de Guillermo Cervi acrescentou os Clásicos Otoño (2.000m – césped), General Belgrano (2.200m – césped), Chacabuco (3.000m – areia) e o cobiçado Gran Premio de Honor (3.500m – areia). Nos três últimos, bateu o arquirrival Cruz Montiel, com sobras. Veio então o Pellegrini-1949. Naturalmente, Penny Post foi franco favorito milhares de pules à frente do potro revelação do Uruguai na temporada, Luzeiro, com a direção de Legui. Enquanto isso, o alazão Cruz Montiel foi relegado a uma terceira força com menos de 100 mil nos boletos. Ídolo do público turfista, Penny Post lograva sua melhor forma e demonstrou isso ao rebocar os rivais até o linheiro final, com o coetâneo Cruz Montiel guardado no quarto posto pelo experiente Rubén Baltasar Quinteros. Durante a reta final, a vantagem de Penny Post aumentou e ao cruzarem diante do velho umbu (cerca de 300m para o disco), cinco corpos atrás, a atropelada de Cruz Montiel parecia um esforço em vão. A 150m do vencedor, Penny Post ainda levava quase quatro corpos sobre o cavalo da Caballeriza Lía H. – cujos sócios majoritários eram os brasileiros Roberto e Nelson Seabra –. Apesar de dirigi-lo em sua primeira campanha, Oswaldo Pellegrino havia perdido a preferência para montar Penny Post para um dos melhores redeadores do país, Salvador Di Tomaso. Entretanto, Dito estava suspenso e Pellegrino voltou a montar o tostado por ocasião do citado Pellegrini. Por pouca técnica ou excesso de confiança, a atitude de Pellegrino nos metros finais foi decisiva. Antevendo a vitória logo adiante, diminuiu o ímpeto e deixou Penny Post a seu próprio governo. Cavalo de temperamento forte e físico privilegiado, o representante do Stud La Giralda arrefeceu rapidamente o que foi imediatamente aproveitado pelo atropelador Cruz Montiel que ultrapassou o favorito praticamente no último pulo. Separados por pescoço de vantagem, Cruz Montiel e Penny Post cruzaram o disco diante de um público estupefato. O pouco empenho no final da carreira fez com que Oswaldo Pellegrino não só perde-se a montaria do crack vermelho como também ganhasse uma suspensão por dez reuniões. Depois desta frustrada experiência, Penny Post – com Di Tomaso definitivamente de volta ao seu dorso – reapareceria vencendo com firmeza o Gran Premio José Pedro Ramírez (Maroñas) em janeiro de 1950, como verdadeira revanche sobre Cruz Montiel que viria em definitivo para o Brasil, onde foi ganhador de várias provas nobres na Gávea. Em solo pátrio, Penny Post somaria, ainda, na sua última e invicta temporada de pistas: Clásico Otoño (2.000m – césped), pela segunda vez; Clásico Vicente L. Casares (2.500m – areia); Clásico Chacabuco (3.000m – areia), também pela segunda vez consecutiva; Clásico General Pueyrredón (4.000m – césped) e novamente o Gran Premio de Honor (3.500m – areia). Adquirido em remate pela elevada soma de 2.300.000 pesos, pelos Haras El Moro, Chapadmalal e Las Ortigas, que se cotizaram para comprá-lo, Penny Post faria um cânter de despedida sob os aplausos do público presente em San Isidro.
No haras, Penny Post não luziu da mesma maneira. Mesmo assim, em seu legado deixou – como ele – um brilhante ganhador do Gran Premio Nacional. Em 1956, conduzido por Héctor Ciafardini, seu filho Labrador – que muito lembrava o pai – venceria com sobras a maior prova para a nova geração argentina.


Na tarde ensolarada de 6 de novembro, Penny Post – com o jóquei Oswaldo Pellegrino –
realiza o cânter para o Pellegrini-1949, em San Isidro.

 

 

 
 

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