NA REBIMBOCA DA PARAFUSETA
Milton Lodi

Essa história pode não ser verídica, e ela é apenas atribuída aos mecânicos de automóveis que não são escrupulosos. A minoria inescrupulosa desses mecânicos aproveitar-se-iam dos desconhecimentos dos e das motoristas, no que diz respeito à parte mecânica dos seus carros, e após um rápido e superficial exame no motor do carro prognosticam um problema não simples, na “rebimboca da parafuseta”, mas que ele em dois ou três dias pode resolver. De um modo geral, quando da devolução do automóvel ao dono, ela vai acompanhada por uma conta encorpada. Muitas vezes o problema na verdade era simples, um cabo da bateria que estava frouxo e cortava a energia, um cabo de vela fora do devido lugar, um fio eventualmente desconectado, mas o hipotético problema “rebimboca da parafuseta” se encarrega de bem engordar a conta. Essa história é atribuída por muitos à classe minoritária dos maus mecânicos de automóveis.
No turfe, há também alguns treinadores, incompetentes e/ou maldosos, naturalmente em pequena minoria, que, por ignorância ou maldade, inventam ou enfeitam problemas. Um caso que ficou famoso no Hipódromo da Gávea ocorreu com um supervisor, que a rigor muito pouco entendia, mas que sempre tinha uma explicação para iludir os interlocutores. Foi o caso de um proprietário, que entregou um potro xucro, ainda não domado ao tal supervisor de nome Aguiar, e 15 dias depois soube que o potro já estava na raia iniciando as suas primeiras partidas. Indagado o supervisor disse que aquele potro era especialmente precoce, e havia que aproveitar. Mais umas semanas e o proprietário voltou a ver o seu potro, e notou, apesar de sua inexperiência, que os boletos dos anteriores estavam crescidos, estufados. A isso, o tal supervisor disse que “era uma natural acomodação óssea”. Não sei se o potro chegou a estrear.
Em outro momento, caiu nas mãos do mesmo supervisor, um excelente milheiro ganhador clássico de nome Playboy. Os anteriores do ótimo corredor estavam a cada semana mais grossos, doloridos, mas a resposta às indagações eram que “era assim mesmo”, o problema seria do excesso de qualidades do cavalo, que corria muito, se empenhava nos treinos com muita vontade, tudo era muito natural. Até que os evidentes problemas foram agravando, e terminou com o Playboy não podendo mais correr.
Houve também, entre muitos outros casos, o de um leilão de potros, no qual se apresentaram os primeiros filhos de um pretensioso garanhão alemão, com características de corredores melhores em distâncias maiores. Apenas um potro não era fisicamente bom, tinha um anterior com um forte desvio. Naturalmente foi comprado por uma quantia irrisória. Houve uma surpresa geral quando o tal potro muito defeituoso apareceu inscrito para estrear logo no primeiro páreo para os produtos da nova geração. Indagado o porquê daquilo, o treinador disse que valia a pena arriscar a ganhar antes do início da campanha dos sãos, mesmo em distância inadequada e fora do momento apropriado. É claro que o potro não se colocou, e pior, mancou gravemente. O treinador fez essa barbaridade porque só os proprietários perdem dinheiro quando os páreos não são programados, pois cada semana nos boxes custa ao proprietário cerca de 500 reais, em valores aproximados, e cada corrida com descolocação só tem custos para o proprietário, os profissionais somente deixam de ganhar, nada perdem.
É por isso, entre outros fatores, que é necessário que os proprietários pensem bem, avaliem corretamente as características morais e técnicas dos treinadores passíveis de receberem os seus animais para cuidar. A não ser no caso do treinador Carlos do Carmo Cabral, tive a sorte de só contar, de 1956 até hoje, com bons treinadores e jóqueis. Na Gávea, no início de 1956, eu contava, como tantos outros, com o melhor jóquei brasileiro de todos os tempos, o lendário Luiz Rigoni, que também costumava montar os cavalos do meu pai, que além do Rigoni também se utilizava dos serviços do jóquei segundo colocado nas estatísticas, Candido Moreno. Como o Rigoni era muito assediado, muitas vezes não se podia contar com ele, assim como também com Manoel Bezerra da Silva, o Bequinho, muito ganhador à época.
Tive a sorte de poder ter como jóquei preferencial por cerca de 35 anos, com o espetacular Antonio Bolino, nota dez em técnica e honestidade. Nos eventuais impedimentos, na Gávea eram usados os serviços do ótimo Gervásio Pedro Fagundes e mais uns poucos. Em Cidade Jardim, os eventuais substitutos eram Eduardo Le Mener Filho e Edson Amorim, ambos de muita classe. Assim passou o Ipiranga por mais de 60 anos como proprietário em relação aos jóqueis. Quanto aos treinadores, na Gávea Claudemiro Pereira e Expedito Coutinho, em São Paulo com José Silvestre de Souza (Zé Pinto), e no Paraná com Elidio Gusso. Todos honestos e competentes, responsáveis pelas vitórias do Ipiranga em todos os principais hipódromos do país, e também nas corridas no exterior. Contar com treinadores e jóqueis competentes é fundamental para quem não quer se aborrecer, que quer passar por essa vida participando dos encantos dessa atividade maravilhosa que é o turfe. Já há alguns anos, diminuí muito a minha participação efetiva, tendo sido Comissário de Corridas por 9 anos no JCSP e por mais 4 anos na Gávea. Foram anos ótimos.
Minha última corredora ficava  aos cuidados do ótimo treinador Alcides Morales, que começou como cavalariço, foi a 2º gerente, foi redeador, e obteve mais de 3.000 vitórias na Gávea, que morreu como treinador emérito e mereceu do JCB uma Prova Especial em seu Calendário Clássico.


Alcides Morales - Lance

 

 

   
     


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