MODOS DE CORRER
Milton Lodi

A experiência, a observação e o raciocínio, em relação às formas de serem corridos os páreos curtos, com exemplos os de 1.000 metros, e os de distâncias maiores, os mais de 2.400 metros, fazem com que algumas conclusões importantes de evidenciem. Tradicionalmente, o entendimento geral era no sentido de que nos páreos de 1.000 metros o bom era largar na baliza um, junto à cerca interna, tomar logo a ponta e tentar o mais possível fugir para a linha de chegada. Esse era o conceito generalizado. Assim, a correria já se iniciava no pulo de partida, e ia até os pulmões aguentarem. É claro que, quando há um cavalo de classe superior, de maiores qualidades, há uma correta previsão do provável resultado. Correndo em qualquer colocação no percurso, o melhor deve terminar vencendo. Mas no geral, com cada páreo agrupando animais de poderio locomotor semelhante, o que se verifica através dos tempos é que os resultados dos páreos de 1.000 metros não termina favoravelmente para aqueles que largam por dentro e logo aceleram ao máximo para chegar logo à linha de chegada.
Turfe não é matemática, e dentro das incertezas das corridas, há um imponderável muito grande. Dois casos, dentre muitos outros, que deram motivo a essas dúvidas. O criador e proprietário José Bastos Padilha, tinha um cavalo pernambucano de nome Mamoré. Padilha era um dos grandes nomes do turfe carioca na época, e era um prazer ver Mamoré tomar a ponta desde o primeiro pulo e disparar na frente dos seus adversários, sempre vencendo por larga margem, enquanto que os outros lutavam desde a partida pelo segundo lugar, em que muitas vezes era conseguido por um que não tentava ganhar do Mamoré, era guardado para no final conseguir a segunda colocação sobre aqueles que terminavam muito cansados pela infrutífera tentativa, pegar o então campeão absoluto dos 1.000 metros. Exceto Mamoré, que era muito superior nos tiros curtos, todos os que tentavam alcançá-lo diminuíam as suas velocidades por volta dos últimos 300 metros.
Em outra época, muito depois, surgiu um cavalo do Haras Santa Ana do Rio Grande que era praticamente imbatível nos 1.000 metros. Chamava-se Mensageiro Alado, que montado por Juvenal Machado da Silva, tinha velocidade para correr na ponta, mas era guardado por volta da colocação, sempre em distância do então ponteiro que lhe permitisse alcançá-lo, e arrancava nos últimos 400 metros para sempre vencer com autoridade. Mensageiro Alado não costumava vencer por vários corpos, ele era trazido comedidamente pelo fantástico Juvenal para uma vitória, não importava a diferença sobre o segundo colocado. Hoje, com a sucessão de páreos de 1.000 metros, pode-se dizer que páreos curtos, como exemplo o de 1.000 metros, deve-se correr atrás. Uma análise desse tipo de páreos nos dá o direito de pelo menos admitir que aproximadamente percorridos 700 metros à velocidade máxima em um folego só, isto é, sem respirar, obriga aquele cavalo a diminuir o ritmo para poder respirar, tomar novo fôlego, e é aí, por volta dos últimos 300 metros, que os que correm para uma aceleração final levam vantagem.
O ótimo corredor Clackson, à sua época talvez o melhor cavalo brasileiro, tinha um poderoso físico e uma grande aceleração inicial, tomava a ponta no pulo de partida e acelerava ao máximo, mas após correr cerca de 700 metros repentinamente diminuía o forte ritmo, e após uns poucos galões muito menos fortes para respirar, voltava a uma forte aceleração em seu segundo fôlego.
O ótimo Glória de Campeão, quando montado por Tiago Josué Pereira, apresentava o mesmo detalhe, depois de 700 metros corridos em disparada e em um fôlego só, diminuía por instantes a disparada para respirar, e logo depois voltava a acelerar novamente. Foi dessa maneira que ele venceu espetacularmente a Dubai World Cup, e no final quase foi alcançado pelo 2º colocado, pois então não havia como diminuir para nova respirada. No ano seguinte Glória de Campeão voltou a correr os 2.000 metros da Dubai World Cup, mas com outro jóquei que não o conhecia, e chegou em segundo lugar, perdeu por falta de fôlego, por falta de uma respiração adequada.
O treinador emérito Alcides Morales sempre repetia, que páreos curtos corre-se atrás. O inverso ocorre nos páreos longos, como exemplo os de 3.000 metros. Correr atrás, digamos a 10 corpos daquele que lidera o páreo, e depois de percorridos cerca de 2,5 km querer que o cavalo acelere e ainda desconte os tais 10 corpos, cerca de 30 metros, naturalmente é pedir muito. Distâncias longas devem preferencialmente serem corridos perto, é claro que sem exageros, mas dentro de um ritmo conveniente e que facilite uma aproximação para vencer.
Outro dia o treinador campeão do JCB deu uma aula a respeito. Eram 3.000 metros para 4 competidores, sendo dois do Guignoni. O pilotado por V.Borges colocou-se bem próximo do ponteiro, e uns poucos corpos atrás os outros dois competidores bem próximos um do outro, o outro do Guignoni montado pelo excelente W.S.Cardoso. Corridos os primeiros metros, o páreo em questão já estava ganho por um dos dois cavalos do Guignoni. O pilotado por V.Borges, na entrada da última reta já encostou no ponteiro, e daí por diante tomou a ponta e venceu com muita autoridade, enquanto que o pilotado por W.S.Cardoso atropelava para chegar em segundo, ultrapassando o que vinha em terceiro e também o ponteiro, que, por ter sido afoito em demasia, ficou para último.
Turfe não é matemática, o perde e ganha dos páreos comuns tem resultados muitas vezes imprevisíveis. Se um mesmo páreo for repetido posteriormente mais de uma vez, os resultados serão muitas vezes diferentes em muitas oportunidades, pois cada páreo é um páreo, com suas próprias características. Mas em geral páreos muito curtos ou muito longos, a experiência mostra que é de bom tom correr os páreos curtos para uma atropelada, e os longos perto dos ponteiros. Pelo menos é isso que dizem a experiência, a observação e o raciocínio.

                                                         

   
     


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