DESGASTE DAS REPRODUTORAS
Milton Lodi

É claro que um dos fundamentais interesses dos criadores é no sentido de que as éguas reprodutoras tenham filhos saudáveis, de boa complexão física, e de qualidades. Em função disso, os mais estudiosos levantam estatísticas, estudos, análises. Os norte-americanos, por exemplo, fizeram um acurado estudo utilizando-se de um gigantesco número de éguas, e chegaram à conclusão de que os melhores, os bons produtos nascem entre os seis primeiros filhos. Há no entanto quem entenda que o fator preponderante no assunto é a idade da reprodutora. Há outros ainda que acham que acham que é o desgaste físico da égua, por exagerada campanha nas pistas e o habitual excesso de trabalhos fortes é o principal motivo do insuficiente resultado. Seja lá o que forem, muitos exemplos confirmam, e muitos outros não confirmam, e muitos outros não confirmam, os estudos e as ideias.
Há muitos anos, o Haras Guanabara acreditava que uma égua com 15 anos já ultrapassava o limite de idade para uma boa produção. Vendeu então uma égua cheia de Radar para um haras de Teresópolis. O potro chamou-se Arlequino, e foi o primeiro líder de sua geração na Gávea. Isso não quer dizer muito, pois antigamente os produtos realmente de qualidade maior vinham de centros criacionais muito mais adiantados, como São Paulo, Rio Grande do Sul e Paraná, mas é um dado digno de nota. O cavalo norte-americano Secretariat, que entre outras provas venceu a terceira prova da tríplice coroa, em 2.400 metros, pela escandalosa diferença para o segundo colocado de 31 corpos, foi gestado por uma égua com 18 anos de idade.
Entre parênteses, o hipólogo John Aiscan dizia e escreveu que o pai de Secretariat não era Bold Ruler, bom corredor e pai norte-americano, conforme registro, mas certamente o francês Herbager, que estava alojado no mesmo haras de Bold Ruler.
O paulista Manguarí, criação do Haras Mondesir, por duas vezes recordista dos 2.000 metros na pista gramada do JCB, ganhador de 16 vitórias e 8 colocações sempre na primeira turma, inclusive duas provas da tríplice coroa carioca, vencedor da milha e dos 2.400 metros, o Derby, era filho de uma velha égua argentina, beirando os 20 anos, que antes havia dado cerca de 10 produtos sem quaisquer realces. Os exemplos são diversos e se multiplicam. O campeão Haras Santa Maria de Araras, que exige de suas reservadas potrancas um severo início de campanha, preferencialmente correndo aos 2 e aos 3 anos, poucas vezes aos 4, consegue delas um ótimo resultado na reprodução, pois após a severidade dos trabalhos preparatórios e das corridas, elas tem uma larga existência para eventuais reproduções físicas.
A égua Garbosa Bruleur, uma das maravilhas do melhor criador brasileiro de todos os tempos, José Paulino Nogueira, do Haras Bela Esperança, arrendou para o proprietário José Buarque de Macedo para a campanha nas pistas. Garbosa Bruleur foi excepcional ganhadora, líder da ala feminina, e o primeiro animal a vencer o até então líder da ala masculina, o espetacular Helíaco, isso no GP São Paulo. Após anos de liderança, Garbosa Bruleur mostrou decadência, não tinha mais condições físicas de reeditar os seus grandes feitos. Mas foi obrigada a continuar a sua campanha nas pistas por mais algum tempo, mesmo então fracassando. O seu jóquei habitual, o sensacional Luiz Rigoni, contrariado com o excesso imposto à brilhante corredora deixou de montar a Garbosa Bruleur. Foi substituído por outro bom jóquei de freio, Artur de Araújo, que naturalmente não fez milagres. Devolvida para a reprodução, Garbosa Bruleur mostrou ótima fertilidade, e produziu em todos os anos. Os primeiros filhos foram seguidamente as fêmeas Narbosa Bruleur, Orbosa Bruleur, Parbosa Bruleur e Lourinha, todas com aptidões apenas comuns. Depois vieram dois machos, um filho de Seventh Wonder e de Hamdam, de nomes Race Horse, padrão handicap, e Sísamo, ganhador clássico. O produto seguinte foi na barriga da Garbosa, então cheia do ótimo garanhão francês Pharas, quando ela foi vendida para o Haras São Quirino. Nasceu Garboleto, um dos líderes nacionais e que venceu o Derby, e no ano seguinte com o mesmo Pharas, deu Hansita, ganhadora do Diana. A seguir Garbosa Bruleur mostrou ter perdido a vitalidade, voltou a produzir animais sem uma ponta de classe. Já velha e vazia, foi dada de presente pelo Haras São Quirino ao seu criador Haras Bela Esperança, para morrer nas terras em que havia nascido.
Uma vez, chegando no Haras Bela Esperança para almoçar com o Dr. Paulino, vi em um piquete próximo as potrancas de um ano, sobressaindo-se duas delas, uma alazão e uma castanho, eram muito maiores que as outras. No almoço, perguntei o motivo daquilo. O Dr. Paulino me disse que as duas potrancas grandes tinham mais um ano que as outras, já tinham 2 anos, e já estavam aguardando completarem 3 anos, quando então iriam direto para a reprodução, livre dos habituais massacres dos domadores da época, e do excessivo rigor proveniente da incompetência de muitos treinadores. As duas potrancas grandes eram as melhores, eram as reservas para o futuro do Bela Esperança.
Teorias, estudos, resultados, opiniões, análises, tudo isso fazendo parte do jogo de xadrez que os criadores fazem com a natureza.

 

 
 
 

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