O COSTUME COM O BOM
Milton Lodi

No decorrer dos cotidianos, a gente se esquece que o que era pior e ficou melhor, o bom é tão fácil de ser usufruído que o pior fica para sempre esquecido e ultrapassado. No JCB essa norma se repete. Antes, as pistas ficavam quase impraticáveis quando de fortes chuvas. Eu me lembro que em um dia de corridas programadas, a pista de areia estava de tal forma molhada pelas fortes chuvas nos últimos dias anteriores que a Comissão de Corridas, uma hora antes do primeiro páreo, mandou um carro com comissários e com jóqueis para verificarem as condições na prática. Não foi necessário dar uma volta toda, no final da reta oposta o carro atolou e os programas daquele dia foram suspensos. A pista de grama após as chuvas, apresentava trechos mais secos, principalmente na área interna na altura dos 1.000 metros, ficava afundando. Eu me lembro que, antes do 1º páreo de um sábado, na pista de grama junto a cerca interna estava muito ruim, embora do meio para fora estivesse em boas condições. Antes do galope de apresentação daquele 1º páreo, a Comissão de Corridas chamou à sua sala os 6 ou 7 jóqueis daquele páreo, informou que mesmo a cerca móvel que havia sido colocada estreitando a pista na reta oposta não apresentava total garantia, e determinou que todos os jóqueis corressem pelo centro da pista e com todo o cuidado, e só fizessem correr os seus cavalos depois de terem entrado na grande curva. Todos entenderam a determinação. Eram, se não me falha a memória, um jóquei veterano e os outros aprendizes ou novatos na profissão. Foi quando o Juvenal, o genial J.M.Silva, disse que então era melhor que os outros o deixassem tomar a ponta, e os outros deveriam só acompanhá-lo sem perturbá-lo. Foi uma gargalhada geral, deixar o Juvenal assumir a dianteira e deixá-lo ditar o caminho e o ritmo era o mesmo que dar a ele antecipadamente a vitória.
Essas lembranças servem apenas para ilustrar o estado das pistas encontrado pela Comissão de Corridas da então recém-eleita Diretoria liderada por José Carlos Fragoso Pires. Quando não chovia, a pista de areia tinha torrões de pedras e ferraduras perdidas, e a grama, principalmente por volta da partida dos 1.600 metros, cheias de pedrinhas, que era jogada nas pistas pelos cavalariços que iam e voltavam com os animais inscritos, como represália ao fato do caminho do prado não receber adequada limpeza, e as pedras daquele caminho, que dificultavam o caminhar dos cavalos e dos cavalariços, eram atirados na pista de grama.
Hoje as pistas estão muito bem cuidadas e o caminho do prado devidamente cuidado. Os programas das corridas eram preparados de forma irregular, páreos com até 8 inscritos eram cortados para dar lugar a outros com 4, 5 ou 6 concorrentes, no intuito de beneficiar os proprietários que eram simpáticos às administrações da época e tinham no então handicapeur um conivente. Hoje os programas são preparados honestamente. A tabela de recordes era falsa, recordes eventualmente batidos nas pistas eram declarados com tempo maior que o verdadeiro, quando corriam em distâncias em que constavam cavalos de certos proprietários. Com a cronometragem não manual, em um ano caíram 7 recordes. Na pesagem, ficou constatado que o então balanceiro “vendia” os pesos de um determinado jóquei, isto é, o peso verdadeiro chegava a ser até 8Kg do apresentado. O ladrão foi naturalmente demitido e o tal jóquei foi embora da Gávea. Aos passeios obrigatórios no prado que antes dos jóqueis montarem, alguns fugiam do sol e do calor no verão, quando de protegidos. Mas tudo isso e mais algumas impropriedades ficaram pra trás, e hoje ninguém mais se lembra delas. O sistema antigo de entregar os grupos de cocheiras em sistema de comodato mostrou-se péssimo na prática, pois a obrigação de manter em ordem não era cumprida, sob a alegação de que as dotações dos páreos eram insuficientes, muito abaixo do necessário, o que era verdade, e quando deixados às cocheiras estavam em lastimáveis condições. Hoje está o setor praticamente recuperado, ou pelo menos muito melhorado, pela ação do engenheiro e ex-presidente do Clube, Carlos Eduardo Palermo.
Nesses últimos 25 anos, o JCB está muito mais moderno, tanto fisicamente como administrativamente, embora ainda sofra consequências das práticas então equivocadas.
Ainda há muito o que ser melhorado, mas já se melhorou muito, apesar da fonte de receita dos proprietários e profissionais estar muito defasada pelos prêmios muito baixos.

 

 
 
 

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