BLUSAS, CORES, FARDAS
Milton Lodi

Um dos detalhes que enriquecem a beleza plástica das corridas de cavalos é o colorido das blusas, com seus desenhos e também com simplicidade. A primeira vez que notei essa importância foi com os animais do Dr. Adhemar de Faria, um benemérito do JCB Diretor e assessor direto de Linneo de Paula Machado, o homem que implantou o turfe no Brasil.
Homem de fina educação, o Dr. Adhemar tocava piano, era muito inteligente e bom administrador. A blusa de seus animais era branca, com cinto e boné encarnados. E aí o detalhe da classe, não era branco, era pérola, que dava um toque de nobreza e beleza. A beleza de “pérola, cinto e boné vermelho” teve seguidores.
João Borges Filho que foi um dos melhores Presidentes do JCB, apesar de ser um homem de fortuna, tinha poucos animais, mas seguiu Adhemar de Faria, e registrou “pérola, cinto e boné lilás”. Foi uma das mais lindas blusas que conheci, pois a tonalidade do lilás fazia daquela farda, no fundo pérola, como uma das mais bonitas que já conheci em minha vida.
Essa questão das fardas é muito mais importante do que se pensa, não é escolher as cores e depois “embrulhar e mandar”, é o requinte, o cuidado, é o toque de classe que mostra a classe. Esse assunto é extenso, e através dos anos sempre mostra o cuidado dos proprietários com as suas blusas, cores, fardas.
Vou citar mais alguns exemplos. O benemérito Antônio Joaquim Peixoto de Castro Júnior, o fundador do Mondesir, tinha a sua farda nominal “azul e estrelas brancas”. No registro oficial do Stud Book Brasileiro, o Dr. Peixoto era o dono dos cavalos. Mas para lisonjear a sua querida mulher, Dona Zélia, o Dr. Peixoto registrou a blusa dele ao contrário, branca com estrelas azuis, com a qual corriam todos os animais do Mondesir. Assim os corredores seriam de D. Zélia, e os outros na reprodução seriam do Dr. Peixoto. Foi um acordo de cavalheiros, de gente educada e de bom caráter, que permitiu essa situação. O casal estava sempre nas corridas, a D. Zélia ia à raia para ser fotografada com todos os seus vencedores. D. Zélia é a turf women número 1 do Brasil. Os animais em criação e os produtos que eram oferecidos em leilões eram todos em nome do Dr. Peixoto, e os que ficavam para correr seriam de D. Zélia.

 

Dona Zelia Peixoto de Castro Palhares Haras Guanabara
   
Haras São José & Expedictus Roger Guedon passou sua farda para o Doce Vale

Outro detalhe interessante ocorreu quando o saudoso Roger Guedon, francês de nascimento mas brasileiro de coração, após morar no Brasil por dezenas de anos, voltou à França quando ficou doente de forma definitiva, encerrou todas as suas atividades e bens no Brasil. Antes de sair, foi procurado pelo criador e proprietário do Haras Doce Vale, que propôs a compra da linda farda “branco, cinto e braçadeiras azul e encarnado”. São as cores da bandeira da França. Guedon do alto de sua classe, disse que não venderia os direitos da blusa, ele cederia gratuitamente, e disse que se o interessado quisesse, poderia fazer uma doação, com qualquer quantia beneficente para uma entidade da qual ele era um dos patrocinadores. E assim foi feito. A grandeza de Roger Guedon, um dos turfistas mais saudosos de nosso turfe, e a concordância dos titulares do Haras Doce Vale, resultam como consequência de fortes ventos a favor da grande vencedora da farda com as cores da França. É uma questão de classe.
Voltarei ao assunto.

 

   
     


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