Max Wolff
 
 
 

A DIFERENÇA ENTRE O CRAQUE E O EXCELENTE CAVALO


Arturo A., por fora, vence a Pechazo no Pellegrini de 1961

Em 2006, escrevi aqui neste periódico meu primeiro ensaio. Ele versava, meio romanticamente, sobre um potro argentino chamado Simbal, que depois fora nominado de Arturo A. em homenagem ao “Sir Tattersall” sul-americano, Arturo A. Büllrich.
Arturo A. correu na virada dos anos 50/60, no rastro da inigualável geração de 1955; e sua campanha foi uma das melhores já vistas por aqui: 12 vitórias clássicas e 2 terceiros postos em 15 apresentações. Montado quase sempre por I.Leguisamo, este já quase sexagenário, AA. foi por décadas o recordista mundial em páreos internacionais; e também recordista em somas ganhas na América Latina. Se corrigidos os valores, possivelmente até nossos dias. Em resumo, ele venceu na Argentina, Brasil e Uruguai: G.P. Carlos Pellegrini-G.1 (San Isidro); G.P. Brasil-G.1 (Gávea); G.P. Derby Sul-Americano-G.1 (Cidade Jardim); G.P. São Paulo-G.1 (2 vezes); G.P. José P. Ramírez-G.1 (Maroñas); G.P.  Internacional 25 de Mayo-G.1 (2 vezes) e G.P. de Honor-G.1 (Palermo); além de provas comuns.
Pergunta-se: seria Arturo A. um craque? Todos responderemos que sim! Que dúvida?!... menos quem mais deveria afirmar nesse sentido: seu treinador, Juan de La Cruz.
O argentino Juan de La Cruz, para mim, de longe, o melhor entre os melhores na arte de preparar puros-sangues que este continente já produziu, ao final de sua vida, ditou um livro intitulado “El Turf y Yo”. Ali ele discorre sobre um potro que ele escolheu e adquiriu em alta soma no Las Ortigas para um proprietário uruguaio, chamado Yatasto. Sobre os brasileiros Dulce e Escorial, dos Seabras; sobre a recordista mundial Miss Grillo, Arturo A. e outros.
Arturo A., filho de um pai medíocre com uma mãe vulgar, com pedigree tendendo à velocidade, fora comprado pelo treinador quando havia atuado em alguns páreos comuns aquém da milha e na areia; sempre correndo de ponta. Juan de La Cruz levou-o aos 3.000m na grama e ensinou-o a correr sempre no fundo do lote. Invariavelmente em último ou penúltimo; “fora de carreira”, como lembra Darar W. Zraik; ensinou-o, assim, a usar sua ponta de velocidade somente na reta final. Dessa forma, reeducado, Arturo A. foi o recordista de somas ganhas e triunfos internacionais em nosso continente. E De La Cruz não o considerava um craque; assim como não considerava Escorial e Miss Grillo; mas obviamente Yatasto e, surpreendentemente, a brasileira Dulce. Afirmava que sua maior frustração profissional, foi não ter corrido (e ganho) o G.P. Pellegrini com Dulce. Em breve explanação, dizia o compositor que Arturo A. era um cavalo ao extremo profissional; sem contratempos; que respondia perfeitamente ao que dele se pedia; e tinha bastante sorte. Mas não o considerava mais do que um excelente cavalo. No quesito sorte de AA. elencava sobremaneira o fato de ter atuado quando a grande geração de cavalos sul-americanos, de 1954/55, já se aposentava; pois considerava-o inferior a esses.
Vemos, assim, que JLC era deveras exigente quanto a considerar um animal “craque”. Todavia, atualmente aqui entre nós, até mesmo no circuito subalterno das retas, se um bom potro ganha fácil uma penca, ainda que dopado até o espírito, diz-se que é craque. Então, afinal: o que seria O Craque? Essa pergunta me foi feita, recentemente pelo treinador de retas Lauro R. Neto. Para o veterinário Fernando Perche, craque é aquele cavalo; contumaz ganhador clássico; que, além de ganhar de seus melhores coetâneos, marca grandes tempos. Concordo. Mas seria só isso?
A melhor explanação que já li sobre o critério vem de John Hislop: hipólogo do qual li os melhores textos sobre trufe e criação. Para o criador, proprietário e treinador de Brigadier Gerard; craque é aquele cavalo que: a) é líder aos 2 anos, a menos que contratempos físicos o impeçam; b) é campeão na idade clássica, ainda que divida o cetro com outro; c) aos 3 e 4 anos, vence a geração anterior à sua, e às gerações posteriores; d) marca grandes tempos; e) vence, ao menos desde a milha, até além da milha e meia; f) por fim, o critério mais difícil. Para J.H. além de todos os predicados anteriores, o Craque é aquele cavalo que decide a corrida no momento que se lhe exige; ou seja: se solicitado corre na ponta desde o início e vence; assume a liderança no meio da prova, quando solicitado ou; guarda-se para uma partida final e ainda assim vence. Enfim, para John Hislop, craque é o cavalo de corridas perfeito. Concordo com o hipólogo: craque é um termo que devemos reservar ao indivíduo que, quando menos, aproxima-se do super cavalo. O paradigma do craque, que era exatamente como J.H. descreveu, foi Secretariat. Ele preencheu com sobra todos os critérios.
O mesmo J.Hislop dizia que o Tríplice Coroado invicto Bahram (1932), fracassara na reprodução, em muito devido a que, em que pese a grande campanha, era um falso craque. Isso porque, não enfrentou outras gerações além da sua; e nunca marcou tempos expressivos. Assim também diziam outros, do também Tríplice Coroado e raçador, Flying Fox (1896). Em nosso meio, esse critério, lamentavelmente, excluiria da lista Itajara. Todavia, o pai de Romarin e Siphon não teve a oportunidade de enfrentar outras gerações por problemas físicos; e foi bi-recordista, se não me olvido.
Hoje, com a internacionalização do turfe, poderíamos dificultar ainda mais o conceito de craque, adicionando: a) a necessária internacionalidade da campanha; b) a capacidade em render em ambas as superfícies de pistas; c) para as fêmeas, ter vencido também os machos.
E cada vez mais fica difícil incluir o critério da estamina, pelo desprestígio atual de tais provas. Recordemos, a distância máxima que Frankel correu foi 2.100m. Considero esse um critério peremptório de exclusão. Muito embora, esse animal ao todo indicasse que bem iria ao fundo, se necessário.
Assim, surge-me à mente uma lista do que poderíamos considerar craques nacionais. Nenhum na primeira metade de século de nossa criação. Arranhando alguns critérios, cronologicamente começaria com Adil. Ainda nos anos 1950, Farwell: talvez o que mais se adeque aos critérios. Emerson, inconteste nos anos 60. Um salto de quase duas décadas até a fêmea Donética. Na década de 80, novamente uma fêmea, Immensity, inequivocamente uma craque. Clackson, que enfrentou os melhores no continente perdendo e ganhando, em ambos os pisos, mas sempre liderando a carreira. Duplex, que logo adiante discorreremos. Não discorrerei sobre Itajara; Cacique Negro e Boticão de Ouro, para muitos os melhores parelheiros; pela ausência do critério intergerações retro exposto. Razões pelas quais já releguei Emerald Hill, que ademais, não foi ao fundo.
Já na década seguinte, incluiria Thignon Lafré; o melhor cavalo que montou Ivan Quintana. Quari Bravo, é inconteste.
Excluirei Much Better e seu irmão Sandpit, outros que para muitos foram os melhores; por faltarem-lhe os critérios juvenis; de vitórias clássicas na milha ou aquém. Razões pelas quais já esqueci Dark Brown. Incluirei Siphon, repleto de critérios. Excluirei Romarin, por lhe faltar, talvez, sorte; e, pasmem, Riboletta, por faltarem-lhe também os critérios juvenis (determinantes). Por ausência de estamina, ficam de fora Pico Central e Redattore.
Já na primeira década deste milênio, também pela incapacidade ao fundo, relega-se Leroidesanimaux. Mais que incluso, a joia do Santarém, Glória de Campeão. Incluirei Xin Xu Lin e Eu Também; mas não Fluke, devido a  não ter comprovado sua capacidade ao fundo.
Nesta década, recordo-me o irrefutável Bal a Bali. Fatalmente esqueci outros nomes que preencheram esses critérios objetivos. Entenda-se, esta é uma nominata informal e desinteressada; feita de imediato e livre memória.
Vemos, portanto, que critérios múltiplos são difíceis de serem preenchidos; e uma lista de craques nacionais, onde não figuram Emerald Hill, Itajara, Cacique Negro, Much Better, Sandpit e Riboletta; soa um sacrilégio. Mas critérios são critérios, e esta explanação não tem a pretensão de expor paixões ou fazer verdade; mas sim, fazer refletir.
Outra característica do craque, ainda que não seja um critério, é que, quase invariavelmente; eles são emocionalmente animais muito inteligentes, ou autistas. Desse último tipo, relatou-me o treinador Walfrido Garcia, era Duplex. A nosso primeiro “globetrother”, não interessava quão cheio estivesse o hipódromo ou em que país fosse; ele sempre estava alheio à tudo: caminhando indiferente no padoque; absolutamente relaxado, e não raramente com o pênis exposto.
Se observados ao rigor, todos os critérios; em toda a história do Puro-Sangue mundial, temos de excluir; como craques plenos, ou super cavalos; até mesmo St. Simon (GB.1881); Ormonde (GB.1886); Man’O War (USA.1917); Seattle Slew (USA.1974) e o já citado Frankel (GB.2008); devido a que, abordaram somente uma ou outra superfície. Mas recordemos, naquela época, só havia grama na Europa e areia nos EUA; daí que impossibilitados os antigos de comprovarem-se em ambos os pisos.
Restam inabaláveis, como super cavalos, craques em toda a sua plenitude: Yatasto (ARG.1948); e Secretariat (USA.1970). Nenhum dos dois fora invicto.


 
 

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