Max Wolff
 
 
 

CONFESSO QUE ÀS VEZES DESCONFIO...


Atlas (1955): o paradigma físico do cavalo argentino de outrora

         “...Que o meio ambiente; o hemisfério; o magnetismo da terra, ou seja lá o que for, possam ter alguma influência, por ora desconhecida, no físico e  qualidade do cavalo atleta.
Até os anos 60 do século findo, época em que os homens sabiam mais de cavalo de corrida, e menos da mercantilização desse; era consenso de que o meio ambiente afetava sobremaneira a criação do Puro-Sangue Inglês.
O cavalo argentino de então era facilmente identificado no passeio preliminar, mesmo por quem o via pela primeira vez e sem o programa em mãos. Diziam; e ouço a voz de meu finado amigo Odair Bettega: “o cavalo argentino não é bonito”... “mas é maior”. Entendiam os hipólogos sul-americanos de então, que a fertilidade dos campos argentinos, o clima etc, produziam um indivíduo potencializado fisicamente. E sem adentrar mais na genética pura, entendiam que essa otimização física era progressiva e exponencial; de forma que, afirmavam, a partir da segunda geração, já não era possível utilizar o reprodutor nativo, filho de pai argentino, porque os produtos seriam então demasiado grosseiros e carentes de classe finesse. Daí que, necessário introduzir sangue europeu, preferentemente sangue francês, sabidamente o mais “racé”, para refinar e dar classe à produção. Repito, esse não era um conceito isolado; era uma fato notório, e por isso, irrefutável entre os criadores platinos de antanho. Mas seria esse conceito verdadeiro?
Há cerca de uma década, interessei-me pelo tema e, solitariamente, passei a analisá-lo. O cavalo nacional era, até os anos 50, notadamente menor que o argentino; om as raras exceções dos “Quatis” e “Albatrozes”. Tanto que, Adil nos deu a primeira pedra no Pellegrini, um terceiro posto, pesando 420Kg. Poucos anos mais tarde; Escorial fê-lo nossa pela primeira vez aquela grande prova, com o mesmo peso. Com exceção do “petizosin par” uruguaio, Romántico, toda a mais de meia centena de ganhadores do Pellegrini anteriores, naquele século, eram nativos argentinos. Com raras exceções, dos quais me recordo apenas do pampa Mineral e “tubular” Payaso; eram cavalos, quando muito médios; mas geralmente grandes.
Estaria então correta essa teoria Darwiniana da influência do meio no físico e, por desdobramento, performance, do cavalo atleta? Teria, além da fertilidade do solo, e das condições nutricionais, algum fator preponderante a incidir sobre o desenvolvimento do indivíduo? Talvez.
Ressalte-se, era fato notório que os animais de então na Austrália e Nova Zelândia eram, também, notavelmente maiores. O apoio da Oceania opõe um forte obstáculo a refutar esse conceito; mas acredito, a praxe naqueles tempos, de uma criação mais natural, com a sabida maior fertilidade dos campos argentinos e da Australásia, eram os fatores que jogavam a seu favor.
Por aqui, com exceção dos Paula Machado, Seabra e Peixoto de Castro; com alguma isolada e menor exceção; o que fazia nossa cavalhada parecer com mestiços eram as condições de criação pouco esmeradas. Potencializada pela menor fertilidade de nosso solo em todo o território.
Mas voltando ao cavalo argentino de antanho; que grande ele fosse. Que fosse convexo, hipermétrico e longilíneo; na classificação de Baron. Mas por que seria também macrosquélico (pernalta magrão)? Se o que abundava eram os nutrientes? O paradigma físico do cavalo argentino de antanho, era o craque Atlas (Aristóphanes e Antinea). E essa distinção física dos cavalos do Prata perdurou até os anos 70. Alatone El Virtuoso foram os últimos melhores exemplos desse biótipo; quando a regra já desaparecia.
Analisando, creio ter encontrado a resposta. Possivelmente por acaso, o elevage argentino teve uma grande influência do chefe de raça Congreve; que dominou como pai nas décadas de 1930 e 1940; e como avô materno nas décadas de 1940 e 1950; adentrando os 1960’s ainda com boa influência via materna. O grande raçador do Haras Ojo de Água, fora em carreira, e imprimiu quase sem exceção, cavalos grandes; algo esguios; ossudos; de cabeça longa e pesada. Eram, ademais, francamente arenáticos.
No caso de Atlas, seu avô materno, também do Ojo de Água, o britânico Pont L’Eveque, de escassa influência, potencializou ainda mais essas características dos Congreves, o segundo avô materno.
Enfim, o inigualável e magnífico Congreve, modelou fisicamente, por décadas, toda uma das criações mais importantes do mundo. No conceito atual do agente uruguaio Victor Azambullo, conforme pessoalmente me confidenciou, a base materna Ojo de Água, era, de qualidade global, somente superada no mundo pela criação Aga Khan.
Mas voltando ao conceito platino de que garanhões nacionais, filhos de nacionais, não produzem bem; os números nos fazem difícil refutar tais conceitos. Não só na argentina, mas também nesta terra de Cabral.
A diminuir ainda mais as minguadas oportunidades que os cavalos nacionais recebem na reprodução, por melhor que sejam; os filhos desses garanhões ainda que excelentes atletas o recebem de forma deveras escassa e; o pior fator: com as piores matrizes.
Uma análise simples, é desanimadora. Começando com meu ídolo Congreve, este obteve com seus netos por via paterna, muita, e internacional qualidade na reprodução, através de seu filho Embrujo. Boa qualidade, com Médicis e Churrinche (ARG); Mazarino e Uránio (URU); El Hornero (VEN); e Brick (CHI). A linha paterna Congreve perdurou até a quarta geração, através de seu excelente neto reprodutor Nigromante (ARG e USA); e boa qualidade através de Penny Post (no Peru) e Cuatrero (URU). Nigromante chegou a gerar um ganhador do Preakness Stakes: Candy Spots.
Mas Congreve era Congreve: um supercavalo e raçador, não podendo ser tomado como regra. De sorte que, na história do turfe argentino, somente Sideral; já filho de um nativo; formara mais de um grau de gerações de descendentes com qualidade.
E em nosso meio? É clássico o exemplo de Fenomenal, ganhador do GP Brasil de 1972, que pertencia à terceira sucessiva nacional: Fenomenal-Torpedo-Sargento. Mas Fenomenal foi um sire inexpressivo.
A regra é que reprodutores filhos de nacionais fracassam redondamente. Santarém, o primeiro grande reprodutor nacional, produziu Ever Ready como um tão somente honesto reprodutor. Além do célebre produtor de reteiros no centro-sul do RS: Bororó. Todos seus demais filhos fracassaram em transmitir.
Clackson, nosso melhor reprodutor em todos os tempos, e do qual muitos filhos tiveram alguma oportunidade, deixou o relegado Ramirito. Ótimo reprodutor, e melhor avô materno. Os demais, nada fizeram.
Only Once, excelente reprodutor nacional, para não se dizer excepcional, trouxe em Quinze Quilates um muito bom reprodutor. Milord, excelente reprodutor paranaense dos anos 60, produziu o bom reprodutor Pinhal.
Pinhal só era excelente em termos locais (antes que o Duilio Berleze me critique). E aí a cadeia encontra o fim.
Zenabre, outro magnífico, teve no modestíssimo Artung seu melhor semental. Egoismo?... nada. Romarin, outro dos grandes pais, até agora não mostrou um único filho de expressão transmissora. Thignon Lafré? Um fracasso. Oxalá, Wenzel Blade, filho do excelente Blade Prospector, auxilie na inversão dessa desagradável realidade. Ressalte-se, nas carreiras de canchas retas, Blade Prospector já insinuou ser um bom pai de pais. Mas esse é um nicho limitado e subalterno. Oxalá, algum filho de Fluke, ainda por estrear nos salve.
Na América do Norte, pudera o Kentucky Derby winner Animal Kingdom, filho norte-americano do nacional Leroidesanimaux; possa reproduzir bem. É nossa torcida.
Seria então totalmente equivocada, a teoria tido como irrefutável de nossos hipólogos de outrora? Acredito que sim. Acredito que as condições imediatas de criação e a genética aportada, seja o determinante. Assim como todas as demais teorias sobre genética pura e aplicada que se criou; com exceção do Fator Rasmussen, que é bem mais uma observação que uma teoria; a Teoria do Hemisfério também não encontra respaldo. Mas vejo um excelente nacional de segunda geração produzir só nem um só animal razoável, chego a desconfiar. Ahhhh... gloriosa incerteza do Turfe.

 

 
 

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